era tudo tão estranho à luz difusa do velho abajur projetando
sombras na parede como fantasmas a vigiar os corpos nus no leito revirado
enquanto a noite ardia em tremores súbitos e o véu do encanto se dissipava em
nós na aranha que tecia a teia lúgubre das horas enfeitiçada pelo tique-taque
do relógio na parede pálida de espanto enquanto fora a chuva fina batia contra
as vidraças e o vento cortante embalava as roseiras no jardim esvoaçando suas
delicadas pétalas carmesim e suas hastes balançavam-se num confuso balé cuja
música era o sibilar do vento que também se fazia ouvir no farfalhar das folhas
das árvores em que pássaros pousados em seus galhos protegiam-se da chuva nessa
noite em que tudo era silêncio ocultado nas sombras e até mesmo os bichos
encolhiam-se em suas tocas e a lua
sequer se atrevia a desvendar-se entre as escuras nuvens que acobertavam
malvadamente o brilho das estrelas como fosse esse ato impiedosamente condenado
como profano e dele só restasse o ocultamento tornando-o inexistente aos olhos
humanos que por assim serem o julgariam condenável e impróprio sendo portanto
indigno e vergonhoso de ser propagado devendo permanecer nas sombras da noite
como um fantasma indesejado de revelar-se mesmo que a pureza do amor que
envolvia os dois amantes fosse o único propósito desse imponderável encontro tão
inocente para ambos que permaneciam completamente alheios eternamente perdidos
num sonho impossível tendo a noite como única testemunha muda desse amoroso
desenlace
Ianê Mello
(02.12.12)
*
arte: colagem sem título de Lydia Roberts
(02.12.12)
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arte: colagem sem título de Lydia Roberts
