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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

SENTIMENTOS EM CONFLITO





Sei que não é por querer que você me diz
palavras duras que ferem como lâmina de aço
sei até que sua raiva esconde na verdade
um profundo amor que não cabe em si
mas dói, dói demais ouvir tais palavras
dói demais sentir a raiva em seu olhar

Sei que preciso compreender a sua dor
ser paciente e tolerante, que tudo isso vai passar
mas em meu peito este sentimento ruim
teima e insiste em não me abandonar
por mais que não seja a primeira vez
por mais que eu devesse me acostumar

Sei  que a vida com você será  sempre assim
instável, frágil e sujeita a altos e baixos
sei também que você não tem culpa
por estas oscilações de humor constantes
por estes sentimentos que oscilam
do amor ao ódio, por vezes num breve instante

Sei que sou a pessoa que te ama incondicionalmente
que você conta sempre comigo em sua vida
que se você fere é por sentir-se ferida
mas por ser humana não posso me impedir
de sofrer a cada vez que você me ferir
e sentir  o meu amor  cansado assim

Mas sei que amanhã tudo pode mudar
resta então esperar que amanheça
e a doçura em seu sorriso de menina
traga de volta a esperança em meu olhar
e a mãe que em mim adormecia
acorde a mulher que sabe amar

Ianê Mello
(09.02.14)


*
Pintura de Ans Markus


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

ANTOLHOS





Segue a procissão
segue...

cordeiro manso
passo a passo
pro abismo de certezas inúteis
pro abandono de dúvidas latentes

mas, vai...  segue...

tuas patas não ousam o prazer da busca
tuas patas se atrapalham em novos caminhos

teus olhos estão cegos em antolhos

então segue...
segue o bando a sua frente
apenas segue...


para os lados sua vista teme olhar
para a frente, sempre em frente
carneirinho manso...segue...

tua sina é seguir...
sempre atrás.


Ianê Mello
 

*
Pintura de Ans Markus 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Fora de Mim




Louca estou
a rasgar minha roupa
a gritar impropriedades
a vagar pelas ruas
completamente nua
exposta
olhos perdidos
vazios
sem controle
sem rédeas
cavalo solto
na garganta o grito
estrangulado
na alma o sentimento
encarcerado
peito cravejado
em solidões
fugas de mim
no poço sem fundo
o fim
vida que vagueia
impunemente
sem rumo
casa destelhada
minha frágil morada
ferrugem e pó
cactos retorcidos
tenho sede
corpo recolhido
entre os escombros
da vida
que jaz.

Ianê Mello


Créditos de imagem: Pintura de Ans Markus

sábado, 15 de outubro de 2011

FORA DE MIM





Louca estou
a rasgar minha roupa
a gritar impropriedades
a vagar pelas ruas
completamente nua
exposta
olhos perdidos 
vazios
sem controle
sem rédeas
cavalo solto
na garganta o grito
estrangulado
na alma o sentimento
encarcerado
peito cravejado
em solidões
fugas de mim
no poço sem fundo
o fim
vida que vagueia
impunemente
sem rumo
casa destelhada
minha frágil morada
ferrugem e pó
cactos retorcidos
tenho sede 
corpo recolhido
entre os escombros
da vida
que jaz.




Ianê Mello




(prêmio da Sexta-feira da Ousadia: Loucura, em Vozes em Madrigal) 


Crédito de imagem:Pintura de Ans Markus

terça-feira, 21 de junho de 2011

A PROCURA DE SI

Pintura de Ans Markus



Era apenas uma mulher. Não que o sexo fizesse diferença nesse momento. Era, na verdade uma alma aflita. E aflições podem acometer  qualquer ser, independente do sexo. Mas o fato que lhe ocorreu em particular, certamente que não. Só uma mulher o sofreria. 
Ela vagava perdida. Em sua vida não encontrava um sentido, uma razão para estar no mundo. Uns a chamavam de louca, outros a ignoravam, poucos a compreendiam. Não, decididamente ela não era um ser comum. Desses que nasce e encontra seu lugar nesse mundo de meu deus. Ela era diferente, desde que nasceu, pode-se acreditar. 
Foi concebida num ato de violência extrema, quando sua mãe era apenas uma menina de 13 anos de idade e ainda brincava com bonecas. Certamente não foi um ato de amor, mas brutal e de extrema crueldade. Mesmo assim, deu-se prosseguimento a gravidez, com todas as dificuldades que uma menina poderia ter ao carregar em seu ventre imaturo um filho. Essa decisão foi tomada pelos seus pais, que eram evangélicos e não admitiam a possibilidade de um aborto. 
Aquela menina franzina e imatura, de apenas treze anos passou a carregar o fardo, o peso de um ser que dentro dela crescia e  se desenvolvia a olhos vistos. Sentia-se um ser estranho, fora do contexto. Enquanto as outras meninas brincavam com suas bonecas, corriam e saltavam, viviam sua meninice, ela sentia dentro de si aquela sementinha que germinava. Na rua, na escola, as pessoas faziam questão de olhar aquele ventre intumescido, sem qualquer disfarce ou piedade, o que a deixava constrangida. Esse olhar era, geralmente,  um olhar de crítica, como se um crime fora cometido e a culpada fosse a pobre menina. Sem duvida um crime fora cometido, mas que culpa tivera ela?
Os meses se passaram, entre azias, vômitos e enjôos matutinos. Seu ventre crescia, crescia, que parecia que a qualquer momento poderia explodir, pensava ela. Tinha dificuldade para sentar, se acomodar na cama para dormir e até para se levantar. Foram meses de tormento. Ao findar os sete meses, o martírio para ela acabou. A criança nasceu prematura. 
Ela não esperava que as dores do parto pudessem ser ainda maiores  do que imaginava e ouvira falar. 
Enfim, veio ao mundo um novo ser, que não se pode dizer que tenha sido propriamente desejado, devido as circunstâncias. Nasceu uma menina. Aquela coisinha miudinha e frágil, que poderia ser comparada à uma de suas bonecas, mas que não era, nem de longe. Mexia perninhas e braços. Chorava, sem que ela soubesse o porquê. A pobre menina não imaginava que talvez o momento mais difícil estivesse ainda por vir. Vez que nascida, a criança necessitaria de cuidados aos quais ela não estava preparada a dar. Mas ser mãe é um eterno aprendizado...
Assim foram  se passando os dias, com sua mãe a ajudar-lhe nos cuidados com o bebê. Mas a menina via o mundo lá fora. Ela queria trepar nas árvores, ela queria brincar de escorrega, ela queria ser criança e isso lhe foi tomado. Ela era mãe.
E a criança foi crescendo, como é de se esperar em qualquer criança. Os cuidados higiênicos, alimentares, seguiram um padrão de normalidade. Esse não era o problema. A dificuldade era outra.  Ela não conseguia nutrir por essa criança, sua filha, o afeto que seria esperado. Sentia-se distante e apenas cumpria suas obrigações, que envolvia os cuidados necessários para que a menina crescesse com saúde. 
Como amar aquela criança que não fora concebida num ato de amor? Como amar aquele ser que não desejara? Como amar a filha que havia entrado em sua vida num momento em que não estava preparada para tê-la?
Ela era o que se podia chamar de mãe técnica, que provia a criança em suas necessidades básicas: banho, trocar fraldas, alimentar, levar ao médico para as visitas periódicas, medicar nas doenças. Só que sabemos que ser mãe é bem mais que isso. Ser mãe é se doar, é tocar seu filho, acarinhar, fazê-lo sentir-se amado.
Isso, para ela era impossível. Não conseguia desenvolver esse sentimento e se mantinha sempre a distância.
A menina crescia só, aos trancos e barrancos. Muito só. Aprendeu a se isolar como defesa. Criou um mundo só seu, onde não precisava de ninguém, onde ninguém poderia machucá-la, mas também onde ninguém poderia amá-la. Tinha nos livros sua companhia. Ela era a princesa, a fada, a bruxa, a rainha, qualquer personagem que quisesse ser. Ela podia ser tudo nos contos de fada que lia. Só que nesse tudo que podia ser no mundo do ilusório, seu mundo real se perdeu. Sua própria identidade, seu amor próprio, sua reais desejos. 

- Quem sou eu? - ela se perguntava, aflita.

Longo seria o caminho da descoberta de seu verdadeiro eu. Longo e árduo. Será que ela teria condições de percorrê-lo?





Ianê Mello