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sexta-feira, 22 de março de 2013

IRRECONHECÍVEL CRIATURA



Essa estranha criatura que fito no espelho
grandes olhos oblíquos
ondulados em azuis esverdeados
indagativos e irrequietos
de espanto alimentados
no imaginário de uma vida
sem limites nem fronteiras
rodeada de precipícios
esquinas deslizantes
ladeiras abaixo
em tons de cinza ambientada
em amores gris disfarçada
de temperatura instável
equivocada em lentidões
numa espera aparentemente mansa
numa agonia elevada ao delírio
despedaçados sonhos na calçada
em vícios e deleites provisórios
entre sussurros e gritos
entre desejos e pleno gozo
crepúsculos dormentes em paixões
tremores súbitos ao anoitecer
disseminado o medo que congela
manhãs alardeadas em saudades

Ah,essa irreconhecível criatura
que hoje fito com desdém
assusta o que em mim não reconheço
perversa em sua imagem distorcida
em semelhanças de um passado longínquo
recortadas máscaras  de um rosto que se desfez


Ianê Mello
(19.03.13)

*
Pablo Picasso, Moça Diante do Espelho, c. 1932

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

FOME DE MIM




Devoro-me aos poucos
por fome de me saber
saboreio cada fatia
desse eu inacabado
em noites de sono perdido
quando dentro de mim me vejo
como uma completa estranha
alguém que de fato não conheço
degusto assim a mim mesma
como se fosse uma rara iguaria
em mesa posta com pompa

na primeira mordida
sinto um sabor agridoce
com um amargor ao final
um misto de sal e doce
um adocicado aqui
um azedinho ali
especiarias diversas
canela, cravo, alecrim
manjericão, salsa, curry
cominho, sálvia, coentro
um pouco de (nós) moscada

sabor exótico sem dúvida
prato para ser servido com critério
talvez isso explique a cama vazia
talvez isso explique a solidão
talvez isso explique que o (nós)
tenha se tornado apenas eu


Ianê Mello

(30.12.12)

*
Pintura de Pablo Picasso


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

LA CUCARACHA





parecia ser apenas uma barata como qualquer barata que se vê por  aí mas na verdade era uma barata distinta e especial que parecia mexer as anteninhas quando algo lhe agradava e além disso parecia gostar de música se é que é possível uma barata gostar de música pois quando ouvia o som das cordas do meu bandolim  se aproximava  e eu que não tinha medo de baratas continuava a tocar enquanto ela mexia suas anteninhas suavemente como se fossem minúsculas perninhas de uma bailarina a dançar e não parava enquanto eu tocasse o que começou a me fazer vaidoso por ter uma platéia cativa tão atenta e participativa logo na fila do gargarejo o que me fez acostumar-me a toda manhã esperar pela minha companheira de audição e para ela tocar por horas até acontecer um fato inusitado  quando comecei a tocar certa manhã e nada dela aparecer  o que  me deixou consternado e a partir desse dia tal fato se repetiu o que me fez temer pela ausência daquela que fez meus dias se tornarem mais felizes  e que tanto contribuía para o aperfeiçoamento de minha arte e assim sendo resolvi dar uma busca pela casa para ver se a encontrava quando meus olhos subitamente pousaram em seu corpinho estendido no chão do banheiro de empregada com as patinhas para cima e eu  não querendo acreditar  me abaixei e soprei de levinho para ver se ela esboçava alguma reação mas suas anteninhas bailarinas permaneceram  imóveis o que me fez compreender que havia perdido minha companheira e em sua homenagem peguei meu bandolim e para seu corpo inerte toquei uma triste canção de despedida 


Ianê Mello


(09.12.12)

*
Pintura de Pablo Picasso