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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Natureza Animal




Ouço esse som que pouco a pouco,
a cada acorde,
penetra pelos meus poros,
tomando meu corpo
e minha alma de súbito, 
sem que eu possa controlar.
Fecho os olhos e  a viagem começa,
longa e profunda,
para dentro de mim mesma, 
ao vibrar desses acordes.
Me perco em meus labirintos e me entrego
aos meus instintos.
Meu lado humano, pouco a pouco, 
cede lugar ao animal que em mim habita, 
louco para se libertar.
Não, não preciso de nenhum alucinógeno,
nem de nenhuma bebida alcoólica.
Não preciso de nada que embote 
ou entorpeça
meus sentidos.
Pelo contrário, quero-os cada vez 
mais aguçados.
Como aguçados os sentidos de um animal
que fareja, 
sentindo cada odor, pressentindo 
cada perigo e segue em busca de seu território.
Minha viagem é pura, pois que puro é o instinto
que nos move, nos protege, ao mesmo tempo 
que nos impele à aventura.
É o pulsar do sangue em minhas veias.
É o sentir intenso; pela minha própria natureza.
As notas entram, vibram, uma a uma, 
fervilhando o sangue em minhas veias. 
Se espalham por todo o  meu corpo como partículas
sonoras de cores vivas e penetrantes.
Agora eu sou a música; nela me transmuto.
Sou as cordas da guitarra que vibram.
Sou os dedos que as tocam com agilidade e destreza.
Sou ela.
Sou ânima e animus.
Masculino e feminino. 
Mulher e animal.
Sou  alma pura que transcende a identidade,
a dualidade do ser, o humano e o animal, o racional
e o instinto.
Sou meio mulher, meio loba, a correr livremente 
pelos  vastos campos ao som dessas  dissonantes 
notas musicais.
Notas que oscilam, que vibram e  se elevam 
e se retraem como um coração a pulsar, 
em seu eterno movimento, em seu batimento
que traduz a vida.
Ah! Que poder a música exerce sobre mim, 
quando ao sentí-la me liberto dos grilhões 
que me acorrentam, das grades que me contem: 
animal aprisionado.
Sou o puro sentir.
Os sentidos cada vez mais aguçados, o
sangue a fluir pelas veias...quente.
Por todo o meu corpo, posso sentí-lo correr
acelerando meus batimentos cardíacos.
Abro meu peito sem medo e com todas 
as minhas forças deixo sair de mim um grito
gutural, que provêm das entranhas do meu ser. 
Um grito animal, selvagem,  que se liberta... 
e ouve-se um uivo profundo que se espalha pelo ar...
nessa noite em que do alto do escuro céu a lua brilha.


Ianê Mello



Ouça: Pink Floyd - Shine on your crazy diamonds
 


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

De Cara Limpa




Essa ruela escura e sombria nessa solidão que avassala 
um coração já cansado de sofrer tantas amarguras, 
tantos dissabores.
O que a vida ainda reserva além dessa escuridão fria?
Quantos perigos nessa rua, quantos recônditos escondidos, 
quantos medos à espreita?
Como posso saber aonde termina se por vezes até o início
se perde na neblina dos sonhos desfeitos, 
de alguém que já não guarda ilusões.
Existe alguma luz lá no final?
Sim, às vezes até posso vê-la quando não encoberta 
pelo desânimo da incessante busca de alcançá-la.
Onde estou afinal, em que mundo?
Quem sou?
O que sou?
Que destino aqui me trouxe, se é que por ele fui trazida?
Que vida é essa que tenho que viver?
Eu a escolhi ou foi escolhida para mim?
Onde está meu livre arbítrio?
Onde está meu poder de escolha?
E se eu não a quiser, posso devolvê-la embrulhada
em papel barato e rude (pois que rudeza bem conheço e 
em vários momentos de minha vida a vivi 
como muitos desafortunados)?
Pode parecer que reclamo à toa, que choro sem razão,
que a angústia que toma meu peito de assalto é quase nada.
Mas é tanta para mim que às vezes penso não poder
mais suportá-la!
Onde posso encontrar abrigo?
Não, não busco mais ninguém para partilhar minhas dores.
Elas são incompreensíveis para a maioria das pessoas, 
para as pessoas comuns que me cercam com sua máscaras
de falsa alegria.
Elas estão tão envoltas nas suas próprias dores 
ou tão ocupadas em manter  a máscara em seus rostos
que certamente não terão um porto em que eu possa 
descansar meu cansaço.
Elas tem muito mais medo do que eu porque nem conseguem 
mostrar seu rosto.
Eu sou meu próprio porto, quando deságuo em mim
lágrimas sentidas e quentes que rolam sobre minha face, 
desprotegida de máscaras. 
Lavando o sofrimento de minh'alma, 
esvazio do peito a angústia que me consome
e adormeço em meu abraço que me conforta.
Assim aprendi a ser...
só no mundo,
única em mim.


Ianê Mello




Reciclado para " Fábrica de Letras "em 29.01.2010.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Lutemos pela Paz

                                                 Vinheta de Adolfo Payés




Nesse mundo de guerras, injustiças e preconceitos
perdidos estamos nos descaminhos do amor
A cada mão levantada, a cada arma empunhada, a cada agressão
mais nos afastamos de nossa verdadeira essência,
de nossa humanidade, decência e sentimento de compaixão
Quanto tempo perdido com tamanha destruição!
Nos tornamos autômatos, inertes e sem coração
Robotizados estamos, prisioneiros do tempo
Vivemos nossa vida a esmo
Vivemos apenas para nós mesmos
e esquecemos o nosso irmão
Construímos nossa própria prisão
num castelo de ruínas
onde nos escondemos do mundo,
onde nos perdemos cada vez mais
num caminho sem volta
Nos protegemos uns dos outros
por medo da entrega
por medo da decepção
e cada vez mais nos fechamos
dentro de nós, em nosso esconderijo próprio,
onde nos sentimos protegidos
e livres de ameaças externas
E para onde vamos nós
Encarcerados em nosso próprio medo?
Quanto tempo mais aguentaremos esse isolamento?
Já paramos para pensar que o ser ao nosso lado
também sente o mesmo que nós?
Já ouvimos no outro a nossa própria voz?
No olhar desesperançado,
no semblante contraído,
na boca emudecida pelo silêncio,
ouvimos nosso próprio gemido?
Somos iguais, sentimentos e emoções
Então, porque não unirmos nossas vozes,
nos olharmos nos olhos,
compartilharmos nossas dores?
Ainda há tempo, quero acreditar
Se você também crê, vem...
me dê sua mão e vamos caminhar
Vamos nos unir e construir um mundo
onde seja permitido ao menos sonhar.

Ianê Mello


Em homenagem à Adolfo Payés. Pela Paz.


http://adolfo-payes.blogspot.com/