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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ENREDANDO VERSOS





Ah, versos que caem
em gotas de chuva
versos que se esvaem
em lágrimas contidas
em folhas nuas
brancas e sem vida
em palavras cruas


Ah, versos que se nutrem
de dores e de amores
Versos que fluem
transbordando em cores


Ah, versos que são puros
que transpõem muros
Versos que se quedam
Versos que se enredam




Crédito de Imagem: Foto de Cartier Bresson

terça-feira, 20 de setembro de 2011

DIAS IGUAIS




Numa praça em Genebra um homem idoso parecia não se incomodar com a chuva que caía molhando suas vestes. Sentado num dos bancos assim permaneceu, cobrindo apenas sua cabeça com o jornal que ali achara, com seu olhar parado, encoberto pelas grossas lentes de seus velhos óculos e suas mãos apoiadas em sua velha e usada bengala. Estava velho e cansado, imerso em seus pensamentos. Da vida já não tirava proveito e nem graça. Parecia que nada o faria dali levantar-se para procurar um abrigo. Mas por que esse total desleixo com sua saúde? Afinal, poderia pegar uma gripe forte, o que nessa idade não deixa de ser temerário. Mas ele sequer pensava nisso. O instinto de auto - proteção já não fazia mais parte de suas qualidades. Ele se tornara alheio a si mesmo, a sua vida, bem como a tudo ao seu redor. Seus olhos cansados e de visão pouca já não registravam as belezas da vida. Não focava, na verdade, seu olhar em mais nada. Ele apenas vivia, dia após dia, porque não tinha outro jeito, ainda não chegara a sua hora de partir. Quando acordava cedo pela manhã, porque assim se acostumara, a primeira coisa que pensava era: mais um dia... Se levantava da cama sem vontade, com seu andar arrastado, de quem carregava consigo todo o peso de um passado que não deixava para trás. E como deixá-lo para trás se não via a sua frente futuro algum. A única coisa que lhe restava era lembrar-se dos dias que vivera, pois  isso que agora tinha não julgava ser vida.  Ele resolve por fim, depois de muito tempo, levantar-se para ir para casa. Para no sinal vermelho e espera que abra para atravessar a rua de grande movimento. Sente, então, um toque em seu braço. Vira-se e se depara com um jovem rapaz com um largo sorriso no rosto.

- Posso lhe ajudar a atravessar?
- Por que perde tempo com um velho como eu, não tem nada melhor a fazer? - pergunta intrigado com tamanha gentileza.

O jovem olha para ele com serenidade e responde com a voz firme:

- Nada no momento é mais importante do que ajudá-lo a atravessar .

Ele, ainda curioso, pergunta:

- Por quê?
- Porque um dia quando chegar na sua idade gostaria que alguém fizesse o mesmo por mim. Vamos? - respondeu  segurando mais firme em seu braço.
- Obrigada, meu filho. - responde o velho com um sorriso.



Ianê Mello


Crédito de imagem: foto de Cartier Bresson

sexta-feira, 29 de julho de 2011

ENCONTRO CASUAL 2





- Olá, como está?
- Eu vou bem e você?
- Tudo bem, na medida do possível.
- Soube que se casou.
- Verdade. Ia te convidar, mas...
- Não precisa se desculpar, por favor.
- É, tem razão.
- Você sabe que eu não poderia ir mesmo.
- (...)
- Bem e o casamento... está feliz?
- Acho que sim... Sim. Estou feliz.
- Que bom!
- Quer tomar um café ou algo assim comigo? Tem um barzinho logo ali.
- Não há problema para você? Digo...
- Claro que não, vamos.

Não esperava vê-lo assim, no meio da rua. Cara a cara comigo. Nem deu tempo de abaixar os olhos e passar direto. Seus olhos negros já me fitavam fixamente. Ele sempre foi assim. Nunca fugiu de um olhar.  Aqueles olhos negros...negros como a noite. Misteriosos como um poço escuro. Devia saber que mergulhar nesses olhos seria a pior coisa que eu poderia ter feito, mas eles eram  tão sedutores; profundos demais para serem ignorados. Me fisgaram. Me prenderam e neles me perdi.
Agora estou aqui, de frente para ele, nesse bar, amistosamente. Tudo parecendo tão casual, tão normal de acontecer quando duas pessoas que se conhecem se encontram. Tanto tempo havia se passado e para mim parecia que havia sido ontem que aquele homem saiu da minha vida.

Chega o garçon.

- O que você quer beber? - ele me pergunta.
- Um capuccino vai bem. - respondo olhando em seus olhos.
- Algum acompanhamento? - gentilmente pergunta.
- Um strudel de macã. - digo sorrindo.
- Para mim o mesmo, obrigada - diz dirigindo-se ao garçon.

Pedimos o mesmo que costumávamos pedir quando íamos à um café. Interessante. Será que ele se lembrou?

- Capuccino ainda é mossa bebida predileta, pelo que vejo - disse com um ar de intimidade.
- E strudel também ainda é o acompanhamento - respondi com um sorriso sem graça.
- Pois é... há preferências que não se alteram, nem com o tempo.... - flou reticente, fitando meus olhos.

Não suportei e baixei a vista. Era demais... O que ele queria. Me magoar... de novo. Estava casado. Fez sua opção e agora estava querendo me seduzir?
Seus olhos se voltavam para os meus que não mais sabiam aonde pousar. Comecei a mecher nas mãos, nos cabelos, a olhar para os lados... mal sinal, estava me sentindo desconfortável. Eram tantas meias palavras, olhares fugidios, mão perdidas no vazio. Podia quase ouvir os batimentos do meu coração. Será que ele percebia minha angústia? Será que sentia que eu ainda o amava?

- Mas você parece bem... está muito bonita. Aliás, sempre foi.

 Preferi me calar...

- Desculpe, acho que estou te deixando tensa. Pensei que pudéssemos conversar um pouco e tudo ficaria bem
- Não se preocupe. Não há nada na vida que não se possa superar.
- Talvez... não sei bem...

Aquilo já estava me irritando. Ele não tinha esse direito e eu tinha que deixar isso claro. Iria acabar com esse joguinho idiota agora mesmo. Mas com classe. Ele entenderia.

- Olha, foi bom termos nos reencontrado. Saber  que está bem e satisfeito com sua nova vida. Agora, me desculpe, mas tenho um compromisso e preciso ir.
- Mas já, tem certeza?
- Perfeitamente. Por favor, peça a conta.

Contra a firmeza de minhas palavras, ele não teve saída. Chamou o garçom. Caminhamos até a calçada. Trocamos um beijo no rosto. Ele me fitoudaquele jeito... será que um  dia esqueceria aqueles olhos?

- Obrigada pelo lanche.
- Obrigada pela companhia. Seja feliz!

Fui andando com passos apressados pela calçada, me distanciando cada vez mais da quele homeme e sentindo seus olhos cravados em minhas costas, queimando minha pele.
Como poderei esquecer esses olhos?



Ianê Mello



Crédito de imagem: Foto de Cartier Bresson

sábado, 24 de outubro de 2009

Restos de Amor




Não, não quero mais
tuas palavras de arrependimento
Tuas lamúrias, teus lamentos
Podia ser tão simples me querer
Pura e simplesmente por querer
Sem mais perguntas, sem respostas
sem agora, sem depois...

A toda hora


Complicaste o que era pra ser belo
Despedaçaste o amor que era teu
Agora...
...fiques quieto, não chores
Não brinques com meu sentimento
Não dá mais


Te levantes e vás embora
sem sequer olhar pra trás
E leves contigo agora
os restos desse amor

que ainda é teu



Ianê Mello





Eu te Amo (letra de Chico Buarque, música de Tom Jobim)

Ouça na voz de Ana Carolina:
 
http://literapurablog.blogspot.com




Noites Vazias





Em vestes de fina seda
pura malícia
abriga no corpo
doce delícia
Entregue a prazeres
nas noites, nos bares
à procura de olhares
sem nenhum pudor
Mulher de outros tantos
de fácil conquista
Na verdade de um único
que dela nem faz vista
E assim ela segue
nas noites de frio
em busca de outros
que em parte preencham
esse espaço vazio
por ele deixado
Buscando noutros olhos
os olhos do amado


Ianê Mello



John Coltrane - Central Park West