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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

VOA POETA

" Eu nasci na vertical, mas o mundo é oblíquo."
(Popô)

(Ao Popô in memoriam)

Tendo as ruas como morada
Sem abrigo, sem conforto
um ser que não tinha nada
nem um lugar como porto

Sem um teto como abrigo
passava seus dias assim
temendo pelo perigo
de darem a sua vida um fim

A maldade alheia exposto
ainda assim conservava
um sorriso em seu rosto
a quem com ele falava

Dia e noite ao relento
tantas noites mal dormidas
coração sempre atento
as agruras desta vida

Tendo a fome como companhia
e a avassaladora solidão
também tinha a poesia
na palma de sua mão

Naquele simples homem havia
mais do que a fome derradeira
a inexplicável  sede da poesia
que até suplantava a primeira

Pois numa tarde qualquer
sua voz se fez calar
e hoje um verso sequer
ele nos pode ofertar

Ele se foi com o vento
num domingo sem aviso
deixando em meu pensamento
a grandeza de um sorriso

Em nós deixou a lembrança
difícil de se apagar
uma nesga de esperança
perdida em seu olhar

Pelas ruas sempre o buscaremos
com o brilho do nosso olhar
como a vida que não morre
apenas deixa-se resgatar


Seus versos, enfim, ganharam asas
Que o poeta possa voar!



Ianê Mello
(20.01.14)
 

domingo, 8 de dezembro de 2013

ALÉM DO OLHAR



A vida segue seu curso
em dias tão iguais
em dias tão diversos
tristeza, alegria
pranto, riso...
sentir é preciso

a cada anoitecer
a cada por do sol
uma nova esperança
uma flor que renasce
uma estrela que brilha
um fruto maduro
... caído do pé

É preciso seguir
é preciso ter fé
fé no amanhã
fé no que virá
secar as lágrimas
alongar o olhar


Ianê Mello

(08.12.13)

quinta-feira, 18 de abril de 2013

FEMININAS SUTILEZAS





Escorre mansa
Lânguida serpenteia
Fértil em sua origem
Desabrocha encantos
Tantos a cobiçam
Poucos a possuem
Mulher de poucas intimidades
Recatada em meandros
Enredada em teias sutis
Beleza que se distingue
Em olhares esquivos
Gestos comedidos
Numa altivez de quem teme
Ao amor render seus desejos
No véu que a encobre
Aguarda pacientemente
O homem que virá
E com a delicadeza de um cavalheiro
Pousará nela seus olhos
E através do véu verá
A fêmea que nela se esconde
E com dedos de veludo
Revelará o amor até então resguardado.


Ianê Mello

(18.04.13)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

FRAGMENTOS


Desvelos
desfeitos
desato nós
Comparo
comparsas
compartilho sentires
Desperto
desfaço
desamparo seres
Contraio
contradigo
contenho desejos
Sentidos
sensatos
sanciono regras
Pudores
pudentos
publico farsas
Controle
contido
contraponho idéias
Afetos
afagos
afasto temores
Falsidades
falsários
falseio valores
Fragilidades
fractais
fragmento palavras


Ianê Mello


(11.09.12)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

POR BRILHO




sua presença é luz no recinto vazio

...

sombras em meus olhos marejados
fantasmas de sonhos
quimeras...

fica...

fica e preenche aos poucos
a solidão acostumada
abrigada em meu peito
como fera
ferida e acuada

...

apenas fica...

um pouco mais...



Ianê Mello







quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

POEMA....EXPRESSÃO DA ALMA



Poetas que somos, em nossos versos expurgamos a dor, numa catarse.
E que bem faz esse dilúvio de emoções contidas, represadas pelo silêncio.                                                                                   
                                                                                                                     
 Ianê Mello




Quando se escreve com a alma
com as vísceras
o poema é puro sentir
Não importa a técnica 
a rima, a exata construção 
O que importa é a emoção que vibra


É catarse da alma 
é sentimento que aflora
de dentro pra fora
colorindo em linhas 
o branco  e pálido papel
dando-lhe vida


E assim é belo
por sua crueza 
Sensibilidade expressa
à flor da pele.


Não há que julgá-lo
Se bom ou ruim
Não há que decifrá-lo
Há, apenas, que sentí-lo...



Ianê Mello



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Terapia do Ócio




Tem coisa mais gostosa
do que deitar numa rede
e adivinhar desenhos nas nuves?
Ficar de papo pro ar
sem ver o tempo passar
em verdadeira preguiça?
Entregar-se ao ócio
e dele fazer terapia
descansando dessa vida
de eterna correria?

Ah, vai dizer que não
que é pecado então
e pura perda de tempo
deixar escorrer as horas
esquecer o mundo lá fora
e na cama se aninhar
deitar o corpo no gramado
fechar os olhos bem fechados
e ouvir os pássaros a cantar
sentindo a doce brisa
seu rosto acarinhar

Quero ser bicho-preguiça
e viver esses momentos
sem culpa, nem ressentimentos
pois se a vida é para ser curtida
vamos fazê-la valer a pena.

Ianê Mello, em Sábado Poético, Os sete Pecados Capitais - Preguiça.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

BEM VINDA



Eis que a verve poética
a mim retorna
como velha companheira
das noites insones
dos dias vazios
Por onde andou,
que caminhos percorreu
sem minha companhia,
não sei...

Hoje agradeço seu retorno
e que em minhas mãos vazias
novamente faça sua morada
em palavras, versos, verbo
minha voz se faça ouvir
pois que o silêncio
que em mim habitava
num despertar altivo
faz-se voz 


Ianê Mello

domingo, 11 de setembro de 2011

OLHOS DE GATO


Na janela pares de olhos
verdes olhos a espiar
curiosos olhos
olhos de gato
observadores natos
bichanos  de estimação
ariscos por natureza
ao mesmo tempo dóceis
independentes com certeza
lavam-se com a própria língua
banho de gato
água só pra beber
enrodilham-se nas pernas
quando querem carinho
mostram as garras
quando querem ficar sozinhos
nada fazem para agradar
admiráveis felinos


Ianê Mello

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

POEMA VIRTUAL






Digitalizando versos
dedos no teclado
olhos no visor
e nas palavras
 a alma que se desnuda
por detrás do virtual
ainda habita um ser humano
que sente, que sofre, que grita
seus poemas se espalham
como folhas ao sabor do vento
compartilhando seus sentimentos
que antes só ficavam no papel
agora percorrem o mundo
traduzidos em diversas línguas
e intensamente sentidos
pois a emoção é universal


Ianê Mello

CORA MENINA




Para Cora Coralina


Cora, Cora, Coralina
por dentro sempre menina
em seu sorriso a  candura
em seus atos a bravura
da interiorana mulher

Com suas mãos preparava
os docinhos mais gostosos
e com as mesmas compunha
os versos mais primorosos

Mexendo o doce no tacho
escrevendo em seu caderno
sua grande sabedoria
na simplicidade se revelava
na mulher de doces olhos
que a todos encantava.


Ianê Mello

domingo, 28 de agosto de 2011

RABO DE SAIA





Ô minha gente muita calma
que eu sô homi di bem
num vim aqui pra brigá
mas só pra ajudá
o meu cumpadi Firmino
qui deu di si ingraçá
com a moça Maricota
moça bunita e prendada
mas inda uma minina
qui só trabaio vai dá
ele arrastando asa
já qué logo si amarrá
num podi ver rabo de saia
de mocinha jeitosinha
vamo divagá com andô
que sinão num vai prestá
e meu cumpadi vai na certa
arrumá sarna pra si coçá.


Ianê Mello

O LOBO DA ESTEPE





Para Herman Hessse


Não faça barulhos surdos
ele dorme o sono dos covardes
não poderá lhe ouvir
enquanto  o vento sibila
acalentado nos sonhos
ele aquieta o lobo
que uiva dentro de si
fechados os olhos
animal contido
o pelo já acizentado
por anos vividos
o faro já enfraquecido
para odores mais suaves
os dentes não tão afiados
acostumado ao cativeiro
lá o lobo se esconde
pernas enfraquecidas
 para  as estepes íngremes
permanece solitário
num mundo que não é o seu
e quando a lua alta  no céu brilha
escuta-se, como um lamento, 
o seu profundo uivo de dor.


Ianê Mello




* Inspirado no livro o Lobo da Estepe de Herman Hesse.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

FAZEDOR DE SONHOS




Para Jorge Luis Borges




Ao som de um tango
a Argentina celebra
Jorge, o menino,
nasceu para brilhar
Palavras brotaram
de suas mãos de criança
para nunca mais abandoná-lo
Fábulas e símbolos
expressões de sentimentos seus
como um olhar-se através do espelho
vendo seu próprio rosto refletido
Fazedor de sonhos
com a emoção escrevia
procurando levar aos leitores
um pouco de alegria
Idealista apaixonado
pelos livros encantado
Em seus sonhos o paraíso
uma biblioteca seria
Para seu desencanto
cometeu em vida
seu maior pecado: 

não foi feliz
Descanse em paz, Borges,
em seu paraíso tão sonhado
deixando em nós a saudade

em seu imenso legado.


Ianê Mello


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

RISO PINTADO






Lá vem o palhaço
com seu  nariz vermelho
sua boca pintada num sorriso
Ele pula, brinca, ri
alegrando todos ao seu redor
a platéia aplaude  pedindo bis
Mas acabou o tempo
o show já terminou
Desce a cortina do palco
e o palhaço já cansado
de brincar de ser feliz
pega  água e sabão
lava seu rosto pintado
e pelo canto dos  olhos
desce uma teimosa lágrima
e o palhaço agora só
sorri de sua dor.




Ianê Mello

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

PALAVRAÇÃO




Quero a palavra exata
isenta de duplo sentido
que flua com a voz que a emite
que envolva num sentir pleno
de sentido

Quero a palavra precisa
adequada ao sentir que pulsa
emoldurada pela emoção
penetrante e cortante
ecoando persistente

Quero a palavra instrumento
que permita a comunicação
o diálogo entre antagônicos
compreensível e clara
fazendo calar certezas

Quero a palavra inequívoca
que evidencie e elucide
clara aos ignorantes e aos cultos
palavra cognoscível
palavra indelével


Palavra expressão
...
Palavra verbo em ação



Ianê Mello

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A MÃO EM QUESTÃO



essa mão que segura a espada
é a mesma que foge à luta
essa mão que apedreja
é a mesma que afaga o cão
essa mão que invade
é a mesma que se encolhe
essa mão que escreve
é a mesma que repousa
essa mão que segura
é a mesma que solta
essa mão que se estende
é a mesma que cala a boca
essa mão que gesticula
é a mesma que se queda
essa mão que trabalha
é a mesma que assalta


a mão ferida
a mão suada
a mão fechada
a mão marcada


a mão do dono
                          a mão sem dono
                                                      a mão do sim
                                                                              a mão do não


                                                                                                         A MÃO








Ianê Mello

                 

RELIGARE




Hare Krisnha,
 Krisnha, Krisnha
Hare, hare 
Hare Rama
Rama, Rama
Hare, hare


Um mantra de fé
acalma os sentidos
aquieta a alma
traz paz ao coração aflito

Nesse mundo que á Maya,
pura ilusão
buscamos um caminho
uma luz

Voltar-se para dentro
buscar -se em sua essência
encontrar-se consigo mesmo
esse é o caminho

De dentro para fora
é o primeiro passo
...


Ianê Mello

ANIMAL FERIDO




Feito de sombra e pó
em cárcere aprisionado
paredes escritas a sangue
torturado o corpo
na alma desolada
um uivo dentro da noite
atroz e arrepiante
sóbrios pesadelos
no chão de pedras
na cela escura
obscuros desejos
retorcidos na dor
tempo inútil
ignóbil criação
olhos injetados
projetados no medo
voz emudecida
na imposição do silêncio
traços inequívocos
do passado remoto
uma presa viva
um animal ferido
alimento da sordidez
do desumano insano
a ferro e fogo moldado
como gado marcado
um corpo que jaz
inconsciente de si.


Ianê Mello

sábado, 13 de agosto de 2011

A MENINA DO AQUÁRIO





Eu fui uma menina por detrás da janela. A olhar os transeuntes que passavam e a observá-los curiosamente. O que seriam? Teriam família? seriam felizes? Assim eu via o mundo passar, como a Januária de Chico Buarque, que a que todos homenageavam. Só que a mim não prestavam homenagens.  Eu parecia invisível aos olhos dessas pessoas em passos apressados. Para onde correndo tanto? E assim meu dias se repetiam, solitariamente, olhos presos na janela. Já reconhecia as pessoas, seus horários, seus trejeitos, seu andar, seu modo de vestir. A mesma cena se repetia como numa grande tela de cinema.
Eu me sentia num aquário, em meu habitat protegida, mas presa, sem participar ativamente do que do lado de fora se passava. Um mero peixe de olhos grandes e prescrutadores. Mas nesse aquário tinha a temperatura certa para o meu corpo, o alimento necessário, dosado para minha saúde, nada que pudesse me causar mal. estava protegida e segura. Mas será que valia pagar esse preço, a perda da liberdade, pela segurança. Valeria a pena manter-me nessa confortável posição em que tudo me era conhecido ao invés de arriscar-me na aventura do desconhecido? Do lado de dentro via tudo em preto e branco, os dias se passavam iguais. Algo me dizia que lá fora seria diferente. Pensava cada vez mais em sair da minha área de conforto e saltar para o lado de fora, para a vida real. Estar ali confinada, de certa forma não podia-se considerar uma vida completa, mas sim uma vida pela metade, que não correspondia a vida real.
Um dia, não podendo mais me conter, me atirei para fora. Estava quente e meu corpo começou a suar. Mas, pouco a pouco, fui vendo o preto e branco se transformar em diversas cores:  o azul do carro que passava, o amarelo da margarida no jardim, o  vermelho do sinal da rua, o verde do vestido da menina, o azul do céu, o branco das nuvens... Sim, a vida tinha colorido, eu sabia! E era lindo! Ouvi as vozes das pessoas, vi seus rostos de perto, senti aromas diversos. Minha dúvida se dissipou: sim, tudo aqui fora é diferente. Muito diferente do que via a menina na janela. Olhando inebriada tudo a minha volta, soltei um longo suspiro e sorri, um sorriso de quem agora sabe o que é viver e não quer mais viver pela metade.


Ianê Mello



 Crédito de imagem: google