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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O OUTRO EM MIM



É... a vida que escapa da memória e se perde em devaneios . Quando é melhor esquecer para que a fantasia tome o lugar da realidade... sabe-se lá... E a fantasia ganha asas e voa cada vez mais longe e cria raízes e cada vez mais real ela se torna. Traveste-se de encantos e assume o lugar que não lhe pertencia. Faz-se tentadora com seus ardis e artimanhas com a expressão do desejo de uma vida não vivida. E quem não quer uma vida que não é a sua? A grama do vizinho é sempre mais verde e os frutos mais saborosos. O doce mistério de ser o outro! Apoderar-se de outra vida, de outro corpo, incorporar o outro em si e perder-se. Loucura insana ? Pode ser... mas o que importa? Quando se está perdido busca-se uma saída e há tantas portas!  E atrás de cada porta o desconhecido habita, sempre a espera para ser desvendado.


Ianê Mello

(04.02.13)

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Arte: Gravura de Escher.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

VENTO NA VIDRAÇA





O corpo treme e o coração bate agitado enquanto a madrugada avança com seu manto impiedoso da solidão e a tempestade lá fora  contribui com assombrosos  ruídos dentro da noite escura que faz projetar sombras nas paredes nuas como fantasmas que assombram trazendo uma maldição aos habitantes desta casa sombria nos arredores do nada envolvida por gigantescas árvores que balançam ao vento provocando arrepios com o som de seus galhos a se baterem freneticamente contra  as vidraças enquanto ela a tudo assiste num misto de medo e fascínio com sua boca entreaberta de espanto quando escuta num sobressalto ao um estrondoso baque que parece vir do quintal e paralisada de terror encolhe-se no canto da sala e lá permanece a espera de algum acontecimento que justifique tal ruído fechando seus olhos por um breve instante quando num arrepio sente algo roçar em sua perna e sem coragem de abrir os olhos deixa escapar um grito aterrorizado quando sente algo úmido em seus pés descalços e ao abrir seus olhos após um longo esforço vê um par de olhos amarelados cravados nos seus e um som familiar lhe soa aos ouvidos. 




Ianê Mello

(29.01.13)

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Fotografia de Manlarr.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A HORA DE 50 MINUTOS





com as mãos sobre o colo sentada naquele divã um profundo sentimento de estranheza  toma conta de mim e a vontade que tenho é sair correndo dali sem pestanejar mas a consciência me impede e distraidamente pouso os olhos nas paredes brancas com alguns quadros dependurados que me fazem lembrar a visita que fizera recentemente a galeria de artes que era  por sinal uma de minhas distrações prediletas e sinto meu rosto corar quando me deparo com o olhar inquisidor do terapeuta a minha frente esperando que eu desse inicio a sessão o que com certeza eu não tinha a menor vontade de fazer porque hoje me sentia esvaziada de palavras mas sabia que quanto mais eu demorasse mais me sentiria constrangida e seria dinheiro posto fora coisa que eu não poderia me dar ao luxo assim como também em anos de terapia aprendera que essa resistência de minha parte significava algo importante que estava submerso representando material de primeira a ser trabalhado em terapia e tudo o que tinha a fazer era dizer a primeira frase que depois o resto fluiria como um rio caudaloso e o tempo passaria a ser pouco para extravasar uma torrente de emoções que aflorariam o que traria em mim um arrependimento por não ter começado logo a falar e assim pensando não me demorei nem  mais um segundo e só me dei conta que o tempo havia terminado quando meu terapeuta olhou discretamente o relógio em seu pulso


Ianê Mello

(13.01.12)

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Pintura de Paulo Thumé

domingo, 13 de janeiro de 2013

A DOR DA AUSÊNCIA





aquela rosa vermelha encarnada num vaso de vidro sobre a mesa da sala era parte de tudo o que agora restava de você em nossa casa naquela manhã morna de domingo quando ouvi suas últimas palavras ao sair e senti seu beijo úmido em minha boca entreaberta  antes de  deitar-me em nossa cama ainda aquecida pelo calor de nossos corpos encolhendo-me embaixo das cobertas  e abraçando seu travesseiro  para sentir o perfume suave de seus cabelos  quando não mais suportei e deixei que as lágrimas escorressem  pela minha face embaçando a visão de  seu retrato na mesa de cabeceira onde você sorria num tempo em que éramos felizes e estarmos juntos era tudo o que queríamos na vida quando nada mais importava além de nós dois e o amor ainda resistia ao mundo lá fora com todas as suas trapaças e injustiças pois esse sentimento puro nos resguardava de todo o mal e nada nos atingia em nossa união que nos fortalecia e nos extasiava em noites de prazer e entrega fazendo-nos acreditar que era para sempre


Ianê Mello

(13.01.13)


Pintura de Georgia O'Keeffe


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

BISCOITO RECHEADO DE ARTE





nos divertimos muito naquela noite e quando saímos do sarau nossos pés tinham asas e o nosso coração pleno de poesia e canção pois a arte tem esse poder de nos fazer voar e de elevar nossa alma que dança como bailarina e flutua em piruetas no ar e tudo passa a ser mágico nesse momento até o pacote de biscoitos recheados de morango que nos oferece um amigo não importando que só um único biscoito caiba a cada um de nós por sermos muitos enquanto caminhamos até a estação de metrô e até mesmo perceber que fizéramos o caminho mais longo nos faz achar graça mesmo sendo tarde da noite e correndo o risco de perdermos o último metrô pois não existe cansaço nem sono quando nos sentimos revigorados pela  arte que tem mais essa propriedade  de nos fazer sentir renovados e felizes


Ianê Mello

(08.01.13)

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Pintura de autoria desconhecida

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

NOSTÁLGICO ENTARDECER






chão de pastilhas brancas já amarelecidas pelo tempo de uso assim como o mármore encardido da pia e os azulejos pintados das paredes dessa cozinha antiga onde ainda se usava butijão de gás num fogão de seis bocas que certamente alimentava muitas bocas onde provavelmente vivia uma família numerosa e todos se sentavam à mesa central de madeira para o almoço caprichado de domingo  e também para o lanche regado a pães acompanhados de bolo de laranja e biscoitos de nata feitos em casa  que exalavam por todos os cômodos um cheirinho de padaria acompanhados de um delicioso café com leite e todos conversavam alegremente  sobre coisas triviais entre uma mordida e outra de pão com manteiga e geléia de morango também feita em casa e as crianças corriam ao redor da mesa fazendo aquela algazarra e depois quando a tarde caía era certo um cochilo na rede estendida na varanda ou numa espreguiçadeira embalado pelo canto dos pássaros nas árvores do quintal que exalava um delicioso perfume de alfazemas onde o sol se despedia do dia com seus tímidos raios


Ianê Mello

(09.12.12)

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Pintura de autoria desconhecida retirada do google

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

LA CUCARACHA





parecia ser apenas uma barata como qualquer barata que se vê por  aí mas na verdade era uma barata distinta e especial que parecia mexer as anteninhas quando algo lhe agradava e além disso parecia gostar de música se é que é possível uma barata gostar de música pois quando ouvia o som das cordas do meu bandolim  se aproximava  e eu que não tinha medo de baratas continuava a tocar enquanto ela mexia suas anteninhas suavemente como se fossem minúsculas perninhas de uma bailarina a dançar e não parava enquanto eu tocasse o que começou a me fazer vaidoso por ter uma platéia cativa tão atenta e participativa logo na fila do gargarejo o que me fez acostumar-me a toda manhã esperar pela minha companheira de audição e para ela tocar por horas até acontecer um fato inusitado  quando comecei a tocar certa manhã e nada dela aparecer  o que  me deixou consternado e a partir desse dia tal fato se repetiu o que me fez temer pela ausência daquela que fez meus dias se tornarem mais felizes  e que tanto contribuía para o aperfeiçoamento de minha arte e assim sendo resolvi dar uma busca pela casa para ver se a encontrava quando meus olhos subitamente pousaram em seu corpinho estendido no chão do banheiro de empregada com as patinhas para cima e eu  não querendo acreditar  me abaixei e soprei de levinho para ver se ela esboçava alguma reação mas suas anteninhas bailarinas permaneceram  imóveis o que me fez compreender que havia perdido minha companheira e em sua homenagem peguei meu bandolim e para seu corpo inerte toquei uma triste canção de despedida 


Ianê Mello


(09.12.12)

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Pintura de Pablo Picasso


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

REPRISE





naquela manhã quente de verão suas mãos estavam frias e todo seu corpo parecia desvanecer  numa palidez inesperada enquanto ouvia sem acreditar o homem que amava dizer-lhe adeus em palavras lançadas como pontas de faca afiada em seu peito matando dentro dela qualquer fio de esperança nesse amor ao qual se entregou sem medidas coisa que jurara para si mesma não mais fazer  pois já conhecia o fim e sabia o quanto era amargo como fel  e assim estava ele à sua frente agora sendo forçada a assistir o mesmo filme que já conhecia passar frente a seus olhos  na mesma forma forçadamente amena de dizer adeus como dizem todos aqueles  que se julgam superiores de alguma maneira por haverem superado um sentimento que antes existia e por acharem que se bastam a si mesmos  podendo do outro dispor como fosse um chinelo velho que não tem mais serventia sem pensar ao menos que esse mesmo objeto tanto tempo lhe serviu e aqueceu os pés em tempos frios e nem mesmo o olhar incrédulo do outro pode dissuadi-lo do término e nem mesmo a lágrima que disfarçadamente escorre do canto dos olhos o comove como se uma capa de frieza o envolvesse e nada mais possa tocar seu coração que um dia se mostrou tão amoroso e seus lábios que agora proferem palavras duras e cortantes nem mais parecem os mesmo lábios de onde só saíam palavras murmuradas docemente e promessas de amor eterno 


Ianê Mello


(05.12.12)


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Pintura de Santiago Carbonell

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

VIDRO E CORTE




um sabor de morte e de coisa finda no desalento em cacos de vidro espalhados por todos os lados a vida que se esvai em poças de vermelho sangue a tingir o branco azulejo como marco derradeiro de despedida do débil e frágil corpo jogado na frieza desse chão impuro de um banheiro público onde tudo são escombros e dejetos na louça trincada e encardida do vaso sanitário ainda cheirando a urina e da pia entupida onde tantas mãos foram lavadas em dias e noites desumanos daqueles que vivem na descrença de uma vida melhor abandonados que estão a própria sorte e desgraça sem ter ao que recorrer e ninguém com quem contar para ao menos dividir sua miséria de existir e estar pela vida mendigando migalhas de miseráveis de espírito sem compaixão e sem coragem de continuar põem fim a sua parca existência de forma trágica como esse corpo que aqui jaz


Ianê Mello

(03.12.12)

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Arte: colagem sem título de Zeigarnik

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

SOMBRAS DA INOCENCIA




era tudo tão estranho à luz difusa do velho abajur projetando sombras na parede como fantasmas a vigiar os corpos nus no leito revirado enquanto a noite ardia em tremores súbitos e o véu do encanto se dissipava em nós na aranha que tecia a teia lúgubre das horas enfeitiçada pelo tique-taque do relógio na parede pálida de espanto enquanto fora a chuva fina batia contra as vidraças e o vento cortante embalava as roseiras no jardim esvoaçando suas delicadas pétalas carmesim e suas hastes balançavam-se num confuso balé cuja música era o sibilar do vento que também se fazia ouvir no farfalhar das folhas das árvores em que pássaros pousados em seus galhos protegiam-se da chuva nessa noite em que tudo era silêncio ocultado nas sombras e até mesmo os bichos encolhiam-se em suas tocas  e a lua sequer se atrevia a desvendar-se entre as escuras nuvens que acobertavam malvadamente o brilho das estrelas como fosse esse ato impiedosamente condenado como profano e dele só restasse o ocultamento tornando-o inexistente aos olhos humanos que por assim serem o julgariam condenável e impróprio sendo portanto indigno e vergonhoso de ser propagado devendo permanecer nas sombras da noite como um fantasma indesejado de revelar-se mesmo que a pureza do amor que envolvia os dois amantes fosse o único propósito desse imponderável encontro tão inocente para ambos que permaneciam completamente alheios eternamente perdidos num sonho impossível tendo a noite como única testemunha muda desse amoroso desenlace


Ianê Mello

(02.12.12)

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arte: colagem sem título de Lydia Roberts