terça-feira, 2 de agosto de 2011

INTERMITÊNCIAS DA MORTE




Que visão será essa que assombra?
Certamente não é a visão do paraíso
ou o que dele se imagina
É a visão sombria da morte
que se anuncia em cada rua escura,
em cada beco ou ruela escondida
Sempre à espreita, a espera
Em prédios abandonados,
em cidades fantasmas

A morte chega de mansinho
como um afago disfarçada
e nos pega de surpresa
assim desavisados
E que poder temos contra ela?

Como um espectro assustador
em seus braços nos acolhe
como se nos confortar fosse
E o corpo se torna inerte
frio e insensível
Os olhos embaçados
já não podem ver
A boca seca e emudecida
já não respira vida
nem pronuncia palavras de perdão

Envolvidos pelo seu frio manto
seguimos rumo ao desconhecido
Ao mundo subterrâneo e escuro
de onde não veremos mais a luz do sol


Ianê Mello


Crédito de imagem: Felipe Carriço

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

PROJEÇÕES HUMANAS



Mulheres que se agrupam 
na sombra
esquecidas
extenuadas
sem sobressaltos

Mulheres que se agrupam
na sombra
contornos
imaginários
de vultos

Mulheres que se agrupam
na sombra
fazem nela morada
de cansaço
de canção
de quedas aflitas

Mulheres que se agrupam
na sombra
rebrilham em luz
interior
cultivam paz
em lugar da guerra insana

Mulheres que se agrupam
na sombra
seus filhos protegem
no ventre
nos braços
na barra 
da saia

Mulheres que se agrupam
na sombra
e invadem sonhos
de pobres homens
que dormem
solenemente
ao entardecer

Mulheres que se agrupam
na sombra
e do pranto
recriam o riso
e do espanto
redescobrem a coragem


Ianê Mello

Arte: Fotografia de  Alessio Albi

O TUDO E O NADA



O tempo que escoa
como areia na ampulheta
e nele a nossa vida
desfeita em sonhos,
em nossa liberdade despedaçada
na prisão do tempo encarcerada.

E os sonhos tão sonhados
pintamos em aquarelas
em nossa mente que divaga
e em palavras nos perdemos
porque queremos ser Tudo
e naufragamos no Nada. 

No vazio da ilusão
buscamos algum alento
e o que nos resta senão 
mais um desapontamento.

No Tudo que nós buscamos
não vemos o essencial.
A resposta está tão perto
e nós percorremos mundos 
só encontrando desertos.
Enquanto  procuramos fora
esquecemos de olhar para dentro.



Ianê Mello 


PASSARINHANDO






Velhinho de expressão singela
sábios olhos de quem muito viveu
em seu rosto suave a placidez
.... passarinho na vida foi
Em seus versos a pureza
a beleza que encanta
na simplicidade, toda a grandeza
de uma alma que se agiganta
Para quem a amizade
é um amor que nunca morre
Para quem a poesia 
não tem definição
nem deve ser analisada
é para ser sentida
Escute o seu conselho
não adianta procurar fora
o que dentro de você se esconde
e nunca deixe de sonhar
por mais impossível que pareça
realizar tal desejo
pois o sonho é o lampejo da vida
Então, venha, vamos brincar
de esconde-esconde, amarelinha
na vida passarinhar
pois o que vale na verdade
é voar, voar, voar...



Ianê Mello

RELIGIÃOX ESPIRITUALIDADE



Porque nos prendermos à dogmas,
à preceitos religiosos,
à conceitos fechados e restritivos
que pregam sua verdade como única
manobrando mentes mais receptivas
a favor da religião e de seus representantes?

Por que crer num Deus que pune,
que nos vigia a cada momento
que vê quando damos um passo em falso
para nos punir e condenar?

Por que nos sentirmos pecadores
e deixar que outros nos digam o que é certo,
o que podemos ou não fazer de nossa vida ?
E quem é esse outro, senão um ser tão humano
quanto nós, para imbuir-se de tanto poder
e intitular-se representante divino?

O que importa não é ter uma religião  
É termos amor em nosso coração
É fazermos o bem por livre e espontânea vontade
e não por medo de sermos punidos
O sentimento de bondade está acima de qualquer dogma religioso
e o amor ao nosso próximo está dentro de nós.


Ianê Mello 


Crédito de imagem: Pintura de Salvador Dali