sábado, 13 de agosto de 2011

MEU QUERER





Não, não quero nada
                           nada que não seja meu por direito
                           nada que ofenda a terceiros
                           nada que seja abominável

Não, não quero nada
                           nada mais que um sono tranquilo
                           nada mais que uma vaga esperança
                           nada de pecaminoso

Não, não quero nada
                quero simplesmente tudo
                quero uma vida para viver
                quero poder querer

Não, não quero nada
                 quero a liberdade de escolha   
                 quero sentir o gosto
                                               ........................

                                                  gosto de quero mais... 



Ianê Mello
                         

A MENINA DO AQUÁRIO





Eu fui uma menina por detrás da janela. A olhar os transeuntes que passavam e a observá-los curiosamente. O que seriam? Teriam família? seriam felizes? Assim eu via o mundo passar, como a Januária de Chico Buarque, que a que todos homenageavam. Só que a mim não prestavam homenagens.  Eu parecia invisível aos olhos dessas pessoas em passos apressados. Para onde correndo tanto? E assim meu dias se repetiam, solitariamente, olhos presos na janela. Já reconhecia as pessoas, seus horários, seus trejeitos, seu andar, seu modo de vestir. A mesma cena se repetia como numa grande tela de cinema.
Eu me sentia num aquário, em meu habitat protegida, mas presa, sem participar ativamente do que do lado de fora se passava. Um mero peixe de olhos grandes e prescrutadores. Mas nesse aquário tinha a temperatura certa para o meu corpo, o alimento necessário, dosado para minha saúde, nada que pudesse me causar mal. estava protegida e segura. Mas será que valia pagar esse preço, a perda da liberdade, pela segurança. Valeria a pena manter-me nessa confortável posição em que tudo me era conhecido ao invés de arriscar-me na aventura do desconhecido? Do lado de dentro via tudo em preto e branco, os dias se passavam iguais. Algo me dizia que lá fora seria diferente. Pensava cada vez mais em sair da minha área de conforto e saltar para o lado de fora, para a vida real. Estar ali confinada, de certa forma não podia-se considerar uma vida completa, mas sim uma vida pela metade, que não correspondia a vida real.
Um dia, não podendo mais me conter, me atirei para fora. Estava quente e meu corpo começou a suar. Mas, pouco a pouco, fui vendo o preto e branco se transformar em diversas cores:  o azul do carro que passava, o amarelo da margarida no jardim, o  vermelho do sinal da rua, o verde do vestido da menina, o azul do céu, o branco das nuvens... Sim, a vida tinha colorido, eu sabia! E era lindo! Ouvi as vozes das pessoas, vi seus rostos de perto, senti aromas diversos. Minha dúvida se dissipou: sim, tudo aqui fora é diferente. Muito diferente do que via a menina na janela. Olhando inebriada tudo a minha volta, soltei um longo suspiro e sorri, um sorriso de quem agora sabe o que é viver e não quer mais viver pela metade.


Ianê Mello



 Crédito de imagem: google

SEGREDOS DE LIQUIDIFICADOR




Quero dizer em seu ouvido segredos que vão abalar suas crenças e certezas. Derrubar suas falsas estruturas mal construídas. Quero revelar seu nome aos sete ventos, para tirá-lo do anonimato em que se colocou. Covardia, essa é a palavra que te denomina e te resume. Sempre em cima do muro. Sempre esquivo, saindo pela tangente. Você e suas verdades perfeitas, suas táticas infalíveis, sua vida tão certinha. Você e esse sorriso amarelo no rosto só para fingir que é feliz. Sua roupa sempre limpa e passada, seu cabelo penteado, sua barba feita no dia. Mas agora para um pouco, meu amigo. senta aqui e me escuta. Vou te revelar segredos de liquidificador, ao pé do ouvido, triturando seus pensamentos até se tornarem líquidos para que possa engolí-los. Ao engolí-los sentirá na boca o gosto amargo das verdades que te provocarão ânsias em seu estômago frágil, acostumado a alimentos menos picantes e facilmente digeríveis. 
Não, não quero facilitar sua digestão. Ela terá que ser lenta e gradual.  Terá que ser sentida e dolorosa, como a vida é, para que saia do seu castelo de sonhos.  Olhe a sua volta agora, sinta que o mundo pulsa, que o mundo gira e não é ao seu redor, nem tampouco depende de você. Você é apenas mais um nessa imensa engrenagem e é bom que saiba que se não funcionar, será prontamente substituído por uma nova peça. O importante é que a máquina não pare de funcionar.
Então, companheiro, cuidado com suas idéias fixas, com suas certezas absolutas, com sua segurança inabalável, com sua ridícula altivez. Você é apenas um homem, um mortal como qualquer um de nós, sem privilégios ou regalias. Você é apenas um humano, de carne e osso, nesse mundo de máquinas poderosas, de alta tecnologia.
Fique  atento para não ser por elas devorado.




Ianê Mello



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A ILUSÃO DE MAYA






...
tempo em fractais da memória
fragmentos confusos e inatingíveis
perdidos em dispersos caminhos
em inúteis ilusões desiludidas
tudo em Maya se transformou


...


realidade submersa na dor
vida devastada pela solidão
em deserto árido e sombrio
calor  humano já não há mais
se foi pelos ares com o desamor


...


perdido no egoismo do ter
 o ser foi definhando aos poucos
a vida não comove os embaçados olhos
brilhantes de ganância e poder
a justiça no mundo já não prevalece
viver é ter coragem de ir  morrer aos poucos


...


e morrendo aos poucos poder sobreviver






Ianê Mello

O TEATRO DIONISÍACO




Em homenagem ao deus Dionísio
na Grécia o teatro se criou
e das mais ricas formas de arte
ele assim de fato se tornou


Os atores, sempre homens
com máscaras no rosto encenavam 
da tragédia a comédia faziam
e papéis femininos desempenhavam


Os atenienses vibravam
com dança, música e poesia
em apresentações glamurosas
onde os deuses eram honrados.


Ianê Mello


Crédito de imagem:  escultura do deus Dionísio  (google)


Assista: