quarta-feira, 5 de outubro de 2011

FRAGMENTOS DE MIM - II




Sei que serei lembrada em brancas nuvens, em rascunhos de uma vida não vivida, para depois ser esquecida nas manhãs de sol em que o corpo ressurge num clarão e a vida  num átimo se liberta em flores primaveris.
Sei que serei lembrada quando a memória busca no sonho a esperança de vir a ser para em seguida ser novamente esquecida num velho baú no sótão da casa em que um dia morei.

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A memória que se apaga com o tempo como fogo que queima até a cinzas ...



Ianê Mello

FRAGMENTOS DE MIM - I




"Passo tempos, passo silêncio, mundos sem forma passam por mim..."
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego.


Já era noite. Um vento frio penetrava em minha pele pelo fino tecido. A vida era isso. Esse vento cortante a nos provocar calafrios. Vestimenta que proteja nosso corpo procuramos sempre enciontrar mas parece nunca ser suficiente. A vida sempre dá um jeito de penetrar nos pontos mal fechados de nossa ilusão. A fragilidade exposta nos mostra a todo momento nossa humanidade. Nossa necessidade de aceitação. O sentimento de insegurança que nos persegue a cada passo incerto, cambaleante. Nosso olhar perdido na janela a esperar a vida passar, em nosso silêncio sem palavras, em nosso tempo sem memória.

Ianê Mello, em Fragmentos de Mim.

MAIS UM DIA






Acordei...mais um dia
Vesti-me como uma autômata
Jeans,camiseta e tênis
Cabelos em desalinho
Olhos de uma noite mal dormida

Dentro do peito um vazio
Uma vontade de nada
Bati a porta de casa e saí
Tudo parecia tão igual
Eu tão igual a mim mesma

Os olhos embaçados
turvavam minha visão
Seriam lágrimas que rolavam em minha face?
Não importa, é sempre assim

Caminhei...caminhei... quanto tempo não sei
Tanto faz, afinal, o que é o tempo?
Pensava que ao sair à rua encontraria mais calor
Mas senti mais frio do que antes

Pensava encontrar rostos amigáveis,
uma palavra, um abrigo
Mas meu corpo estava frio
Cada vez mais gélido

Voltei pra casa correndo
Deitei enrodilhada em minha cama
Puxei o edredon até não mostrar mais meu corpo
Pouco a pouco meu corpo se aqueceu...

Adormeci.



Ianê Mello


Crédito de imagem: Tela de Francine Van Hove

CARTA PERDIDA




Uma carta um dia escrevi
e nela eu revelava meu eterno amor
Palavras tolas e infantis
pois eu era apenas uma criança
e nada sabia da vida, do mundo

A eternidade do amor
era por mim acreditada
como o sentimento mais lindo
que um ser humano possa ter

Eu acreditava na"cara metade"
naquele ser que um dia
havia sido de mim separado
e retornaria como luz para meus olhos

Bastaria que nos olhásemos
para que nos reconhecessemos
E mais nada na vida importaria
A beleza se faria presente em nós

Onde se encontra essa carta?
Garanto não sabê-lo mais
Ma ela bem poderia ter sido engarrafada
e jogada ao mar como em filmes de amor

Mas não foi e ainda espero
ou não mais espero, essa alma gêmea
Esse amor eternizado pelo tempo
Esse amor de contos de fada.



Ianê Mello


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CAMINHO DO SER



                                                                      Resvala.
                                                                Recorre. Retem.
                                                         Ressurge.  Recozija. Recobra.
                                                  Recupera. Regenera. Reduz. Rechaça.
                                           Recompõe. Retrata. Repõe. Retranca. Retórica.
                                   O gozo. O gosto. O sal. O pelo. O solo. O soco. O caos.
                              O corpo. O vício. O início. O sim. O não. O talvez. O capricho.
                          A vida. A morte. A espera. A plenitude. A ânsia. A loucura. A virtude.
                         O dia. A noite. A foice. O abrigo. A casa. A estrada. O pão.  A escada.
                                Na porta. Na cama. No quarto. No sono. Na vigília. No sonho.
                                     No vazio. No abandono. Na prisão. Na casca. No ventre.
                                          A semente. A fruta. O alimento. A fome. A sede.
                                           A dor. O amor. A fera. A bela. O frio. O calor.
                                                  O ser. O nada. O tudo. O impróprio.
                                                           A chama. O sol. O farol.
                                                                 A luz. A estrela.
                                                                    O encontro.



                                                                      Ianê Mello