quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O DIA DE CADA UM




A tarde já caía. Era outono. Folhas secas formavam um tapete amarelado por todo o parque, cobrindo o que antes era um verdejante gramado. As crianças gostavam de pisá-las, sorrindo felizes ao ouvir o barulho que faziam. Como pode uma criança divertir-se com tão pouco! Sentado num velho banco de madeira, um senhor de meia idade lia um livro totalmente absorto, parecendo que nada ao seu redor poderia lhe chamar a atenção. Dentro de seu carrinho de passeio, um bebê observava maravilhado tudo a sua volta. Com olhinhos de curiosidade ele olhava as copas das árvores, os pássaros, as crianças, movendo sua cabecinha prá cá e prá lá. Afinal, tudo para ele era uma grande novidade! Sua babá, ao contrário, empurrava o carrinho enfastiada, doida para voltar para casa. Ainda tinha tanto o que fazer, tantas obrigações a esperavam. E assim mais um dia findava. Para uns, com muitas alegrias e surpresas. Para outros, infelizmente, apenas mais um dia, como qualquer outro dia.


Ianê Mello

(24.10.12)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

POEMA FECUNDO




O que cabe no poema?

A fome de pão
O amor em vão
O sim e o não
Uma nova invenção?

O que cabe no poema?


A caristia
A sangria
A cama vazia
A vida vadia?

O que cabe no poema?


O temor
O rancor
O torpor
O ardor?

O que cabe no poema?


O verso
O transverso
O reverso
O diverso?


O que cabe no poema?

O diário
O salário
O escapulário
O salafrário?

O que cabe no poema?


O sentido
O perdido
O contido
O pervertido?

Mas afinal, o que cabe no poema?

O tudo, o nada
O simples, o complexo
O silêncio, a palavra
O real, o imaginário,
no poema tudo cabe.

O poema
é útero fecundo
é mãe parideira
é o verbo e o verso
é a arma e a flor

O poema arde
O poema invade
O poema sangra
O poema é vivo
e pulsa...


Ianê Mello
(24.10.12)


*
Pintura de Frida Kahlo 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

CERTAS CANÇÕES




Ouço uma voz que entoa canções
enquanto a nostalgia me envolve
numa carícia aveludada em notas sutis
em pureza d’alma que transborda emoções

Voz que o vento traz de longe, muito longe
em vagas e doces lembranças que ressuscitam
como folhas amarelecidas sob meus pés descalços
que ao mais leve pisar farfalham docemente

Certas canções me deixam assim
trazem em si uma saudade dolorida
no despertar das paixões adormecidas
já maturadas pelo tempo que se foi

Nos amores que passaram sem aviso
e ao cair da tarde, no outono da vida,
revolvem suaves lembranças na alma
da partida que se fez em silêncio


Ianê Mello


Inspirado na canção “Uma voz no vento”- Leila Pinheiro
http://www.youtube.com/watch?v=wilwYraG6A0




*
Pintura de Johnny Palacios Hidalgo

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CHUVA QUE CAI



A chuva cai mansa
em gotas cristalinas
tilintando em cores
amarelo, azul, vermelho
dos guarda-chuvas abertos
sobre as cabeças dos transeuntes

Nas ruas brilham poças d’água
gotas límpidas como carícias
escorrem nas janelas das casas
nos vidros dos carros
nas folhas das árvores
nas penas dos pássaros

No rosto da moça gotículas suaves
confundem-se com lágrimas
em seu triste semblante
Em suas costas nuas escorrem
provocando um leve arrepio

Assim a chuva vem
em meio a tarde nublada
E com ela lava o pranto
em dias de sol resguardado


Ianê Mello

(09.10.12)
Pintura de Melanie Florio



terça-feira, 9 de outubro de 2012

PERFEITA COMUNHÃO





Uma obra de arte
a alma do artista revela
seja numa aquarela
em cores e matizes
em formas e contornos
seja num poema
em palavras combinadas
em versos que se alinham
Momento de profunda comunhão
quando ao toque de duas almas
artista e apreciador se encontram
Numa fusão de pura magia
a arte se torna plena e se eterniza
O artista se desnuda para aquele
que intensamente o contempla
e assim a arte se manifesta.


Ianê Mello


*
Pintura de Marga Céndon