quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

DE VOLTA AO SONHO





hoje acordei de um sonho estranho desses que nos causam vertigem e a sensação de que estamos caindo da cama e ao mesmo tempo a vontade de continuar a sonhar para saber o desfecho pois nos resta a sensação de algo inacabado como na vida parecem inacabados certos fatos que nos ocorrem mas sem dúvida na vida real não estaria sendo perseguida por um lobo feroz e voraz como numa estória de chapeuzinho vermelho perdida na floresta indo para a casa da vovó mas talvez por algum bandido ou assassino que muito não diferiria de um lobo embora suas intenções possam ser outras que não comer-me se bem que num sentido figurado poderia até ser essa sua intenção afinal não faltam indivíduos com taras diversas nessa cidade grande assim como a floresta e suas imensas  árvores poderiam simbolizar os enormes edifícios que nos rodeiam  no centro da cidade e quem sabe um desejo secreto de voltar a ser criança num mundo para mim desconhecido e cheio de surpresas seja representado nesse sonho bizarro onde vejo essa vontade realizar-se o que me leva a divertidamente pensar que se pegar novamente no sono talvez o sonho possa continuar de onde parou e com um sorriso nos lábios fecho meus olhos a espera do lobo


Ianê Mello

(04.12.12)

*
Arte: Amanda Grey

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

VIDRO E CORTE




um sabor de morte e de coisa finda no desalento em cacos de vidro espalhados por todos os lados a vida que se esvai em poças de vermelho sangue a tingir o branco azulejo como marco derradeiro de despedida do débil e frágil corpo jogado na frieza desse chão impuro de um banheiro público onde tudo são escombros e dejetos na louça trincada e encardida do vaso sanitário ainda cheirando a urina e da pia entupida onde tantas mãos foram lavadas em dias e noites desumanos daqueles que vivem na descrença de uma vida melhor abandonados que estão a própria sorte e desgraça sem ter ao que recorrer e ninguém com quem contar para ao menos dividir sua miséria de existir e estar pela vida mendigando migalhas de miseráveis de espírito sem compaixão e sem coragem de continuar põem fim a sua parca existência de forma trágica como esse corpo que aqui jaz


Ianê Mello

(03.12.12)

*

Arte: colagem sem título de Zeigarnik

MERA ILUSÃO




solidão que apavora
quando finda a tarde
melancolia e saudade

o presente já é passado
as águas do oceano fluem
vem e vão...
em vagas

nos ponteiros do relógio
o tempo avança...
tudo passa
tudo muda
nada permanece

só o homem
em sua busca
de fazer de um instante
a eternidade perpétua



Ianê Mello

(30.11.12)

*
Pintura de Edvard Munch

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

SOMBRAS DA INOCENCIA




era tudo tão estranho à luz difusa do velho abajur projetando sombras na parede como fantasmas a vigiar os corpos nus no leito revirado enquanto a noite ardia em tremores súbitos e o véu do encanto se dissipava em nós na aranha que tecia a teia lúgubre das horas enfeitiçada pelo tique-taque do relógio na parede pálida de espanto enquanto fora a chuva fina batia contra as vidraças e o vento cortante embalava as roseiras no jardim esvoaçando suas delicadas pétalas carmesim e suas hastes balançavam-se num confuso balé cuja música era o sibilar do vento que também se fazia ouvir no farfalhar das folhas das árvores em que pássaros pousados em seus galhos protegiam-se da chuva nessa noite em que tudo era silêncio ocultado nas sombras e até mesmo os bichos encolhiam-se em suas tocas  e a lua sequer se atrevia a desvendar-se entre as escuras nuvens que acobertavam malvadamente o brilho das estrelas como fosse esse ato impiedosamente condenado como profano e dele só restasse o ocultamento tornando-o inexistente aos olhos humanos que por assim serem o julgariam condenável e impróprio sendo portanto indigno e vergonhoso de ser propagado devendo permanecer nas sombras da noite como um fantasma indesejado de revelar-se mesmo que a pureza do amor que envolvia os dois amantes fosse o único propósito desse imponderável encontro tão inocente para ambos que permaneciam completamente alheios eternamente perdidos num sonho impossível tendo a noite como única testemunha muda desse amoroso desenlace


Ianê Mello

(02.12.12)

*
arte: colagem sem título de Lydia Roberts

sábado, 1 de dezembro de 2012

REFLEXÕES SOBRE O HUMANO II




preciso muito caos interior para poder parir uma estrela que dança."

                                                                                           Friedrich Nietzsche


É preciso lançar-se no escuro

É preciso atirar-se ao precipício

É preciso entregar-se ao desconhecido

É preciso mergulhar no vazio de si mesmo

É preciso não temer a solidão

É preciso ouvir sua voz interior

É preciso navegar em mares bravios

É preciso coragem de ousar mudar

É preciso enfrentar seus próprios fantasmas

É preciso conhecer sua própria sombra

É preciso querer enxergar além dos limites

É preciso domar os próprios medos

É preciso revelar segredos inconfessáveis

É preciso sacudir as sólidas estruturas

É preciso desnudar-se frente ao espelho

É preciso revelar-se além do óbvio

É preciso desconstruir-se por inteiro

Assim, gerado a partir do caos interior

renascerá em sua completude

esse ser que em você se esconde

esse ser que verdadeiramente és  


Ianê Mello

(30.11.12)



Pintura: Joan Miró - Constelação - A Estrela da Manhã