domingo, 6 de janeiro de 2013

O QUE MUDA AFINAL?



Ano velho que se vai
no romper dos fogos de artifício
... artificiais
abraços trocados
 sorrisos estampados nos rostos
o espocar da rolha de champagne
... (na verdade, cidra)
taças cheias erguidas num brinde
“ adeus ano velho, feliz ano novo”

-tin-tin...

a ceia na mesa posta
um convite ao regozijo
um prazer para os olhos
e para as bocas ávidas
fartam-se todos nesse banquete
nada se pensa nessa hora
tudo é festa e celebração

...

lá fora no escuro da rua
deitada sobre jornais
uma criança chora
mas quem a escutará?


Ianê Mello

(05.01.13)








sábado, 5 de janeiro de 2013

JOGO DE DADOS






Os dados rolam na mesa
como saber se a sorte me sorrirá?

A vida é um jogo
a mim só resta jogar



Ianê Mello


(04.01.13)







*
Arte de MARCELO DALLA

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

TEMPO ADORMECIDO




Guarda teu sorriso no tempo da espera
fruto adocicado em plena estação
Guarda tua palavra na placidez do tempo
amanhecida flor que se abre em botão

Guarda teu amor no peito adormecido
aquecido no fogo fátuo da ilusão
Guarda teu abraço na ternura antiga
agasalhado na esperança que não finda

Guarda-te por fim inteira e intacta
que o tempo não espera e não perdoa
nas horas mornas em que passas debruçada a janela
enquanto  a vida lá fora lhe convida a dançar


Ianê Mello

(04.01.13)

*
Pintura de Mary Jane Ansell


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

SOLTAS NO AR






 Não, não quero mais ouvir
cansei das palavras
palavras vãs...
saem da boca num bocejo
apenas soltam-se no ar
e nele dançam bailarinas

tapo os ouvidos e esqueço
meus olhos fitos
em seu bailado febril
borboletas coloridas
voejam e voejam
incansáveis

...

mas não pousam




Ianê Mello

(03.01.13)


*
Pintura de Mary Jane Ansell

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

FOME DE MIM




Devoro-me aos poucos
por fome de me saber
saboreio cada fatia
desse eu inacabado
em noites de sono perdido
quando dentro de mim me vejo
como uma completa estranha
alguém que de fato não conheço
degusto assim a mim mesma
como se fosse uma rara iguaria
em mesa posta com pompa

na primeira mordida
sinto um sabor agridoce
com um amargor ao final
um misto de sal e doce
um adocicado aqui
um azedinho ali
especiarias diversas
canela, cravo, alecrim
manjericão, salsa, curry
cominho, sálvia, coentro
um pouco de (nós) moscada

sabor exótico sem dúvida
prato para ser servido com critério
talvez isso explique a cama vazia
talvez isso explique a solidão
talvez isso explique que o (nós)
tenha se tornado apenas eu


Ianê Mello

(30.12.12)

*
Pintura de Pablo Picasso