segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

ENTREGUE AS CHAMAS



Ao cair 
da tarde
arde

...

como fogo
em brasa

e do corpo 
febril
lassidão
devora

antes de ir
embora

como lava
magma
vulcão
em erupção

adentra
esquenta
explode

...

em fogos
não artificiais

 artifícios
artefatos
da paixão

que emana
clama

...

em sua urgência



Ianê Mello



*

Pintura de Georgia O' Keefe





(Publicação original em 04.01.11)


domingo, 3 de fevereiro de 2013

O FIM


  
Sombras que me assolam
em noites sem lua
sentimentos ermos
escuridão de presságios
onde estará o fim?

Meus olhos se perdem
ofuscados pela noite
em sombras nas paredes
onde estará o fim?

Nesta lágrima que escorre
neste sangue que se esvai
nestas mãos nuas e frias
onde estará o fim?

Na escuridão que em mim habita
na solidão vazia
na terra que me consome
algo oculto neste peito indolente
nessa dúvida atrós
quem sou, para onde vou após o fim?



Ianê Mello


*
Pintura de Arthur Braginsky

sábado, 2 de fevereiro de 2013

VENTO NA VIDRAÇA





O corpo treme e o coração bate agitado enquanto a madrugada avança com seu manto impiedoso da solidão e a tempestade lá fora  contribui com assombrosos  ruídos dentro da noite escura que faz projetar sombras nas paredes nuas como fantasmas que assombram trazendo uma maldição aos habitantes desta casa sombria nos arredores do nada envolvida por gigantescas árvores que balançam ao vento provocando arrepios com o som de seus galhos a se baterem freneticamente contra  as vidraças enquanto ela a tudo assiste num misto de medo e fascínio com sua boca entreaberta de espanto quando escuta num sobressalto ao um estrondoso baque que parece vir do quintal e paralisada de terror encolhe-se no canto da sala e lá permanece a espera de algum acontecimento que justifique tal ruído fechando seus olhos por um breve instante quando num arrepio sente algo roçar em sua perna e sem coragem de abrir os olhos deixa escapar um grito aterrorizado quando sente algo úmido em seus pés descalços e ao abrir seus olhos após um longo esforço vê um par de olhos amarelados cravados nos seus e um som familiar lhe soa aos ouvidos. 




Ianê Mello

(29.01.13)

*

Fotografia de Manlarr.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

ENCONTRO PREDESTINADO




Assim quando me quedo
em sonhos desfalecida
em murmúrios inaudíveis
me vem a ânsia de tudo querer

Assim quando a espera
se faz tarde sombreada
nas palavras que se vestem
numa esperança inquieta

Assim quando me ponho a pensar,
vestígios de um dia em sobressalto,
assoladas incertezas se aquietam,
desejos em vontades transformados

Assim, somente assim, vislumbro
numa luz difusa o fim do caminho,
em passos percorridos outrora,
sementes que plantei sem aviso.


Ianê Mello

(24.10.12)


*


Pintura de Connie Chadwell

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Publicado no Caderno Revista 7faces.

Caderno-revista 7faces 6ª edição


Sexta edição com rico conteúdo reunindo trabalhos de 22 poetas de Brasil, Portugal e Moçambique - a citar, Ricardo Dantas, Davi Araújo, Tiago Duarte Dias, Adriano Winter, Guerá Fernandes, Joice Berth, Marco Polo Guimarães, Ianê Mello, Pedro Belo Clara, Rosane Carneiro, Carina Carvalho, Paulo Lima, Natália Turini, Luís Garcia, Paula Cajaty, Nuno Júdice, Amosse Muscavele, Carlos Margarido, Amélia Luz, Paulo Vitor Grossi e Renata Bomfim. Em artes plásticas ensaio e estudos de Jordny e uma homenagem mais que especial à Dora Ferreira da Silva. Da poeta a revista traz inéditos, imagens, depoimentos e dois ensaios sobre sua obra: um de Alexandre Bonafim e outro, inédito no Brasil, de Euryalo Cannabrava (in memoriam) que fora publicado inicialmente pela Revista Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. Ainda na edição, um apêndice com uma conversa franca com a filha de Dora, Inês Ferreira da Silva que relembra a relação com mãe e sua dedicação à poesia.


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Poema de minha autoria: Encontro Predestinado (fls. 117/118)