terça-feira, 5 de março de 2013

ESTRANHA SINA




o que me cala a boca
e ensurdece os ouvidos 
é tudo o que não disse
e o que de mim foi omitido

o que me cega os olhos

e entorpece meus sentidos
é aquilo que não vi
e o que de mim se oculta

o que me paralisa
e imobiliza meu corpo

é a contenção do desejo
e a vontade de transpor limites

o que me entristece
e me faz  lamentar
é tudo aquilo que um dia quis
e não tive a coragem de viver


Ianê Mello


(04.03.13)


*

Pintura de Mary Jane Ansell


segunda-feira, 4 de março de 2013

CAMINHO SOLITÁRIO




Não valho o prato que como
a cama em que me deito
a mulher que beijo

Não, não valho nem mesmo
essa furtiva lágrima
que de tua face escorre

Não mereço tampouco
o amor que se revela
em prantos de dor sentidos

nas noites escurecidas sem lua,
na  bruma em que te escondes,
tímida e tristonha a minha espera

Não valho a paixão que te consome
ardendo em tuas entranhas a ferida
nos dias que se perdem solitários

Não, não mereço teu amor tão puro
tua doação sem medidas
o resguardo de teu corpo para meu deleite

Por isso te peço agora
tomado por remorso e
num rasgo de consciência

deixa-me sozinho
em meu próprio enredo
na vida que escolhi e vivo só


Ianê Mello


(01.03.13)

*

Arte de Igor Morski.

domingo, 3 de março de 2013

FLOR NO ASFALTO




uma flor nasceu na rua

feminina e pura
de alvura branca
tão branca reluzente

entre asfalto e pó

entre carros e gentes
entre o calor e a pressa
entre buzinas e vozes

pequenino e frágil corpo

contraste vivo
pulsante e único
improvável existência

mas real como todo o resto
ao seu redor

como a luz que cega
os pequeninos olhos que
pela primeira vez se abrem

num misto de doçura e mistério
despertos do sonho





Ianê Mello
(02.03.13)

*

Arte de Milton Glaser





sábado, 2 de março de 2013

MARIONETES




O amor
essa estranho sentimento
chega e preenche
todos os espaços
todas as brechas
todos os vãos
com sua grandeza
sem limites
toma conta de tudo
se alastra como erva daninha
penetra em nossos poros
desvenda nossa alma
de nosso corpo se apodera
e nós, fantoches de um teatro
ilusório e mágico
por ele somos manobrados
sem forças
sem defesas
totalmente entregues
em suas mãos
objetos de seu desejo
por ele somos usados
para seu próprio deleite
até que saciado
ele de nós se cansa
e assim como chegou
simplesmente vai embora


Ianê  Mello

(02.03.013)

*

Fotografia de autoria desconhecida

sexta-feira, 1 de março de 2013

DESTINO DO POETA





Vento venta ventania
Cabelo no rosto na luz do dia
Desperto desprendo deságuo
Poesia é momento
É fardo é fato é fado
Sentimento safado
De doer até os ossos
De roer por dentro a carne
Músculo e face
Dormente palavra arde
Crepita pulsa sanguínea
Palavra que desalinha
Tece a trama
Arranha a teia
Urdidura e drama
Na cabeça cheia
Versos dissonantes
Louca melodia
Distorcidos amantes
Na cama vazia
Claro que quero
Um pouco mais
De tudo sempre
Um solo um blues um uivo rouco
Coração desenfreado
Poeta louco
Leminski que me acuda
Que a lua branca e muda
Já se esconde em meu olhar
E o que delira em mim
É o lobo que espreita
Estepe esteio êxtase
Viver é uma questão de sentir
Desconstrução do real
Naufrágio lento
Tudo o mais é silêncio
 Fechar os olhos
 Dormir em paz


Ianê Mello

(06.02.13)

*

Arte de Igor Morski.