
Era perto da meia-noite. Lembro como se fosse hoje. Eu tinha 7 anos e era
véspera do meu aniversário. A campainha de casa tocou e ninguém podia supor quem
seria tão tarde da noite. Era meu pai... parecia meio transtornado, não bêbado,
pois ele não bebia, mas bastante nervoso. Invadiu a sala, apesar dos protestos
de minha mãe, assustada e aturdida. Foi até o meu quarto. Eu dormia
inocentemente, como só as crianças dormem, e ao sentir seus braços a me levantarem
da cama, despertei assustada. O que se passava? O que ele estaria pretendendo
fazer? Ele disse, percebendo minha apreensão ” fique tranquila, vim te buscar”
e enrolando-me no lençol, carregou-me nos braços, passando apressadamente pela minha mãe, que parecia estar em estado de
choque, tomada pela surpresa. Independentemente de seus protestos, dirigiu-se
para a porta, descendo a escadaria com um certo cuidado, afinal me carregava em
seus braços, e nem era um homem forte, muito menos jovem. Parecia estar imbuído
de uma vontade inabalável, nada o faria desistir de sua decisão: tirar-me da
casa de minha mãe, aonde até então eu vivia desde a separação dos dois. Estava
tão absorto em seu objetivo que sequer percebeu que eu chorava baixinho. Acho
que naquele momento me senti raptada pelo meu próprio pai. Sensação por deveras
estranha. Minha mãe, finalmente se recuperou do choque e começou a gritar, o
que despertou parte da vizinhança que começou a se empoleirar nas janelas de
seus apartamentos para ver o que acontecia. Mas ninguém nada fez. E ele seguiu
comigo em seus braços, até chegarmos ao táxi que nos esperava. Eu não disse uma
palavra sequer... não conseguia articulá-las, estava tomada de uma sensação
muito estranha e indecifrável. O primeiro amor de uma menina é seu pai e eu o
amava, como era de se esperar. Mas me sentia confusa, pois achava o que ele
tinha feito errado e não conseguia compreender o que o levou à uma atitude tão
drástica. Claro que compreendia o quanto ele devia sentir a minha falta, bem como
eu sentia a dele, mas tudo poderia ter sido conversado entre nós e com o
consentimento de minha mãe, uma vez
expresso meu desejo, eu teria ido morar com ele . Assim, acabariam as
noites sacrificadas em que ele ia visitar-me depois de um longo e cansativo dia
de trabalho. Nas noites em que sentado à escada ao meu lado brincávamos de
escola. Eu, a professora, ele, o aluno atento. Sim, eu era capaz de compreender
o quanto isso era difícil para ele, um homem que já tinha uma certa idade,
embora gozasse de perfeita saúde e tivesse muita disposição. Estava no banco detrás do táxi e pude ver
parcialmente seu rosto. Estava lívido. Apesar de tudo, tive pena dele nesse
instante, pois talvez essa fosse a forma que ele encontrara de demonstrar o
quanto me amava. O amor pode ter formas estranhas de se expressar e isso a vida
começara a me ensinar naquela noite.
Ianê Mello
(01.02.13)
*
Arte de Ben Newton