sábado, 23 de novembro de 2013

VIVER A VIDA



Dizer da vida essa ternura infinda
Vestida de azuis, perfumes e jasmins
Vida vivida em plenitude
Vida a transbordar sentires

Dizer da vida essa procura insensata
Em dúvidas travestida, dia a dia
Dissabores a moldar-lhe a face
Olhos obscurecidos pela espera

Dizer da vida esse desejo intenso
Cores, brilhos, primaveras em flor
Na pele o arrepio da surpresa
A beleza que transpassa toda dor

Dizer da vida eu poderia um pouco mais
Detalhes absorvidos pelos anos
Fio a fio o engendrar da trama
Da aranha que tece seu tear

Dizer da vida e perder-me em palavras
Palavras que com o tempo se vão
Melhor então vivê-la em silêncio
Na entrega que permeia a paixão.

Ianê Mello
(11.11.13)




sexta-feira, 22 de novembro de 2013

FONTE FECUNDA



Entremeados verbos
obscuro sentido
na lucidez da trama
palavras que são véus

nas entrelinhas
teias de segredos
improváveis de decifrar
mescla entre real e imaginário

variáveis as vertentes
alimentam-se de si mesmas
num processo de recriar-se
contemplam a eterna sede de existir


In Tessituras e Tramas , Editora Verve, 2013
Ianê Mello.

Quem se interessar em adquirir um exemplar basta acessar o link:
http://www.livrariareliquia.com.br/tessituras-e-tramas.html

* Foto de Felipe Abrahão Monteiro no Pelada Poética No Leme.

sábado, 19 de outubro de 2013

QUE O SILÊNCIO ME VALHA



Encantar serpentes com palavras
Ofício por demais engenhoso
Voláteis, impactantes palavras
Presas de uma teia de enredos
Perdidas entre seixos de pedras
Escorregadias ao toque das mãos
Fugidias, ambíguas, cortantes
Penetrantes, pungentes
Enquanto vivas e despertas
Esmaecidas em seu brilho
Quando a esmo pronunciadas
Palavras cansadas
Enfraquecidas pelo uso
Numa fraca eloquência
Sem propósito ou valia
Que o silêncio fale por elas
Quando a boca se cala
Que o silêncio seja bendito
Preenchendo o vazio de sons


Ianê Mello

(18.10.13)

*
Pintura de Rene Magritte

terça-feira, 30 de julho de 2013

PRENÚNCIO




Penumbra...
sombras arqueadas
vertigens do dia
silêncio...
vozes inaudíveis
sentires, tremores
vida que se esvai
gotas de melancolia
derramadas
sonhos dispersos
olhar que prescruta
escuridões submersas
sons habitados
no vazio
noite que avança
pela madrugada
em tons púrpuras
sentir é preciso
rasgar a carne
sangrar a ferida
rosa de espinhos
cravejada
macias pétalas
rubras
inevitável ferida
será assim a vida
esse prenúncio da morte?



Ianê Mello

(30.07.13)

*

 Fotografia de Amber Ortolano .

*
Poema inspirado em Jean Michel Jarre - Rendez-Vous 1986 (Full Album)


sexta-feira, 31 de maio de 2013

RAPTO NOTURNO





Era perto da meia-noite. Lembro como se fosse hoje. Eu tinha 7 anos e era véspera do meu aniversário. A campainha de casa tocou e ninguém podia supor quem seria tão tarde da noite. Era meu pai... parecia meio transtornado, não bêbado, pois ele não bebia, mas bastante nervoso. Invadiu a sala, apesar dos protestos de minha mãe, assustada e aturdida. Foi até o meu quarto. Eu dormia inocentemente, como só as crianças dormem, e ao sentir seus braços a me levantarem da cama, despertei assustada. O que se passava? O que ele estaria pretendendo fazer? Ele disse, percebendo minha apreensão ” fique tranquila, vim te buscar” e enrolando-me no lençol, carregou-me nos braços, passando apressadamente  pela minha mãe, que parecia estar em estado de choque, tomada pela surpresa. Independentemente de seus protestos, dirigiu-se para a porta, descendo a escadaria com um certo cuidado, afinal me carregava em seus braços, e nem era um homem forte, muito menos jovem. Parecia estar imbuído de uma vontade inabalável, nada o faria desistir de sua decisão: tirar-me da casa de minha mãe, aonde até então eu vivia desde a separação dos dois. Estava tão absorto em seu objetivo que sequer percebeu que eu chorava baixinho. Acho que naquele momento me senti raptada pelo meu próprio pai. Sensação por deveras estranha. Minha mãe, finalmente se recuperou do choque e começou a gritar, o que despertou parte da vizinhança que começou a se empoleirar nas janelas de seus apartamentos para ver o que acontecia. Mas ninguém nada fez. E ele seguiu comigo em seus braços, até chegarmos ao táxi que nos esperava. Eu não disse uma palavra sequer... não conseguia articulá-las, estava tomada de uma sensação muito estranha e indecifrável. O primeiro amor de uma menina é seu pai e eu o amava, como era de se esperar. Mas me sentia confusa, pois achava o que ele tinha feito errado e não conseguia compreender o que o levou à uma atitude tão drástica. Claro que compreendia o quanto ele devia sentir a minha falta, bem como eu sentia a dele, mas tudo poderia ter sido conversado entre nós e com o consentimento de minha mãe, uma vez  expresso meu desejo, eu teria ido morar com ele . Assim, acabariam as noites sacrificadas em que ele ia visitar-me depois de um longo e cansativo dia de trabalho. Nas noites em que sentado à escada ao meu lado brincávamos de escola. Eu, a professora, ele, o aluno atento. Sim, eu era capaz de compreender o quanto isso era difícil para ele, um homem que já tinha uma certa idade, embora gozasse de perfeita saúde e tivesse muita disposição.  Estava no banco detrás do táxi e pude ver parcialmente seu rosto. Estava lívido. Apesar de tudo, tive pena dele nesse instante, pois talvez essa fosse a forma que ele encontrara de demonstrar o quanto me amava. O amor pode ter formas estranhas de se expressar e isso a vida começara a me ensinar naquela noite.


Ianê Mello

(01.02.13)


*
Arte de Ben Newton