quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

DESPERTAR



(..)

Um intervalo no tempo
a paz por um momento
no desabrochar do sorriso
no amanhecer do olhar

Viver é para quem sabe amar!

(...)

Ianê Mello.



sábado, 1 de fevereiro de 2014

OCULTA EM MIM MESMA



Estar ...
ser ...
analogicamente
me persigo

em ruas
em frestas
em muros
em nesgas
em rasgos

num buscar
incessante
inoperante
dilacerante
deliro

em dias
em noites
em madrugadas
insones

me caço
me vejo
me sinto
me ajo

onde estou?
o que sou?

me preciso
me limito
me recuo
me possuo

em partes
em fragmentos
em subterfúgios

ao amanhecer
me encontro
em mim
perdida
exposta


Ianê Mello


(31.01.14)


*

Imagem de Tomas Rücker




quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

NA SOLIDÃO DA NOITE



Há que endurecer o coração para suportar a dor
Difícil tarefa para uma sensibilidade apurada
A duras penas assisto o rolar das lágrimas
Onde dentro em mim há um grito mudo
Uma criança assustada pede socorro
Mas tapo meus ouvidos as súplicas inúteis
O adulto que me habita não permite trégua
Não há remédio que aplaque a solidão da noite
Quando o dia cai e o sol se esconde
Sentimentos de vazio se apoderam da mente
Inquietudes da alma desabrocham em flor
Mas não há perfume que dela exale
Nem beleza em sua forma e cor
Tudo o que era vivo adormece
O silêncio pesa tornando o ar rarefeito
Só meu corpo permanece acordado
Nas lembranças e desejos tardios
A espera que o dia novamente amanheça



Ianê Mello
(30.01.14)

*

Pintura de Francine Van Hove.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

BORDERLINE


De onde virá tamanha súplica?

O olhar esconde
o medo que atormenta
numa vida que desfaz
inúteis ilusões

Toda a espera
em noites perdidas
dormitando esperanças
entre insônias e temores

No tudo que resta agora
apenas a mudez que cala
a voz presa na garganta

Nada mais há de conter a dor
sufocada a agonia na alma
na vida que escapa
num breve instante
apenas por um fio

...

tênue linha divisória




Ianê Mello

(28.01.14)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

VOA POETA

" Eu nasci na vertical, mas o mundo é oblíquo."
(Popô)

(Ao Popô in memoriam)

Tendo as ruas como morada
Sem abrigo, sem conforto
um ser que não tinha nada
nem um lugar como porto

Sem um teto como abrigo
passava seus dias assim
temendo pelo perigo
de darem a sua vida um fim

A maldade alheia exposto
ainda assim conservava
um sorriso em seu rosto
a quem com ele falava

Dia e noite ao relento
tantas noites mal dormidas
coração sempre atento
as agruras desta vida

Tendo a fome como companhia
e a avassaladora solidão
também tinha a poesia
na palma de sua mão

Naquele simples homem havia
mais do que a fome derradeira
a inexplicável  sede da poesia
que até suplantava a primeira

Pois numa tarde qualquer
sua voz se fez calar
e hoje um verso sequer
ele nos pode ofertar

Ele se foi com o vento
num domingo sem aviso
deixando em meu pensamento
a grandeza de um sorriso

Em nós deixou a lembrança
difícil de se apagar
uma nesga de esperança
perdida em seu olhar

Pelas ruas sempre o buscaremos
com o brilho do nosso olhar
como a vida que não morre
apenas deixa-se resgatar


Seus versos, enfim, ganharam asas
Que o poeta possa voar!



Ianê Mello
(20.01.14)