segunda-feira, 8 de abril de 2013

PALAVRAS




O que sou sem as palavras?

sou barco sem porto
sou rio sem água
sou pássaro sem asas
sou amante sem amado

sou céu sem estrelas
sou flor sem perfume
sou filha sem mãe
sou mulher sem amor

sou noite sem dia
sou corpo sem forma
sou árvore sem folhas
sou vida sem vida

sou só sem poesia


Ianê Mello

(08.04.13)

domingo, 7 de abril de 2013

POESIA QUE EMBRIAGA




A noite cai mansa
o sono se avizinha
cálido convite ao descanso
no coração lembranças
vívidas na memória
de momentos embebidos
na mais pura poesia
cálice de vinho tinto
em letras escarlate
colorindo versos
a embriagar doces sentidos
tornando a vida mais leve
descortinando emoções
que povoarão os sonhos
desta simples poeta

Ianê Mello
(07.04.13)

Pintura de Duart's

sexta-feira, 5 de abril de 2013

DE VOLTA AO COMEÇO



Palavras fugidias
desconcertante silêncio
inquieta alma a espera
de algo, algum lampejo
que faça ecoar em versos
sentimentos latentes
no emudecimento do verbo

palavras simples
que não sejam uma expressão
tórrida e ardente
mas que pulsem contínuas
mansamente claras
liquefeitas  e puras
como água em leito de rio
a jorrar em tenras linhas

lágrimas de sal
a banhar a face obscurecida
lavando os olhos secos
iluminando a estrada perdida


Ianê Mello
(05.04.13)

*
Fotografia de Anka Zhuravleva

sexta-feira, 22 de março de 2013

IRRECONHECÍVEL CRIATURA



Essa estranha criatura que fito no espelho
grandes olhos oblíquos
ondulados em azuis esverdeados
indagativos e irrequietos
de espanto alimentados
no imaginário de uma vida
sem limites nem fronteiras
rodeada de precipícios
esquinas deslizantes
ladeiras abaixo
em tons de cinza ambientada
em amores gris disfarçada
de temperatura instável
equivocada em lentidões
numa espera aparentemente mansa
numa agonia elevada ao delírio
despedaçados sonhos na calçada
em vícios e deleites provisórios
entre sussurros e gritos
entre desejos e pleno gozo
crepúsculos dormentes em paixões
tremores súbitos ao anoitecer
disseminado o medo que congela
manhãs alardeadas em saudades

Ah,essa irreconhecível criatura
que hoje fito com desdém
assusta o que em mim não reconheço
perversa em sua imagem distorcida
em semelhanças de um passado longínquo
recortadas máscaras  de um rosto que se desfez


Ianê Mello
(19.03.13)

*
Pablo Picasso, Moça Diante do Espelho, c. 1932