domingo, 5 de junho de 2011

Ao som do violino





(Para Astor Piazzolla)




sons ternos
nas cordas
de um violino
preenchem o silêncio
gotas de chuva
a tilintar no chão

...

doce manhã
de terra molhada
de incenso que queima
seu perfume pelo ar
de orações e preces
vestes de encantamentos
esparsas solidões

...

lá fora
a chuva cai
poética e solitária
em versos marejados
em cordas sentidas
em sublimes acordes

...

em mim
eu mesma habito
rosto que reconheço
no espelho do quarto
na penumbra que acolhe
no tempo lasso
no perder das horas

...

no mais...

...

só silêncio


Ianê Mello

sábado, 4 de junho de 2011

Fome De Amor




Encontrar-te em meu leito adormecido
Saciado de carinho e amor
Enche-me o coração de ternura antiga
Há muito guardada no sofrido peito


Homem-menino embalado em seus sonhos
Desejoso de muito mais que uma noite
Perdido e só que estava em sua vida
De pura fantasia inventada


Encontras agora, na mulher amada
A realidade em sonhos tão sonhada
Recoste em meu seio, doce amado
e nele sacie sua fome de amor.



Ianê Mello


Pedaço de Céu

Tela de Miró


noite nua
clara lua
céu de estrelas


tua pele
meu desejo
constelação


pele nua
tua pele
céu da boca


fria lua
pele tua
noite nua


céu de estrelas
constelação
céu da boca
tua...




Ianê Mello


Invernal

Pintura de Paul Devaux


tarde enevoada
sol por entre 
as nuvens
rasgos de luz
gotículas de chuva
umedecem a terra


a tarde cai
nostálgica
invernal...


nas copas das árvores
os pássaros 
se aninham
num piado lento


tarde parada
ancorada
na saudade


do astro-rei


...


SOL



Ianê Mello

A dor da saudade











Pai, ainda me lembro daquele dia
em que criança deitei em seu colo
e você me contou estórias de ninar,
acalentado meu sono, me fazendo adormecer.

Pai, ainda me lembro do seu rosto
suado e cansado da luta diária,
de seu terno amassado,
de seu olhar terno e amado
quando junto a mim ficava
e brincávamos de escolinha...

Eu,  a professora
você, o aluno

...nossa brincadeira favorita!

Seguindo seus passos
professora me tornei
e ao ofício dediquei meu apreço. 

Pai, como esquecer seu sorriso,
seu rosto marcado pelo tempo,
seus cabelos embranquecidos?
Como esquecer suas palavras 
que em  momentos de incerteza
anunciavam conforto e determinação?
  
Ainda posso ouvir você a  me dizer:
- Vai minha filha, você é capaz!

Como esquecer seu companheirismo,
sua mão amiga a guiar meus passos?

O tempo passou e com ele seu vigor.
Seu corpo vencido pelo cansaço,
seus verdes olhos embaçados,
sua memória desvanecida,
sua saúde, dia a dia, mais debilitada.

Sim pai, à mim antes parecia
que você não envelhecia,
que o tempo  não lhe pesava.
Sua intensa sede de viver
cada momento como único.
Sua vontade de ajudar
escondendo a própria dor 
num breve suspirar.


Quando dei por mim
enxerguei a dolorosa realidade.
Percebi que o seu tempo,
que a  sua vida começava a decair.
Percebi que você não era para sempre
e que um dia não  teria mais
a sua presença tão querida.

Pai, ainda me pego chamando seu nome
mas hoje não escuto mais a sua voz.
Não posso mais olhar seu rosto,
sentir suas mãos em meus cabelos,
sorrir com seu sorriso franco.
Me sentir amada, acalentada...


Ah, pai... como você me faz falta!




Ianê Mello