segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A TECELÃ





Sobre o peito o infinito vago
costurado em linhas finas de seda
tecelã aprendiz no ofício
com vagar minhas mãos tecem,
fio a fio,
cautelosas, mas precisas

Se o ponto erro
não desencanto
apenas o desfaço e
novamente busco o passo,
o compasso, o ritmo 

Tecendo, tecendo, tecendo
ritmados movimentos
nos pentes do tear

para frente
para trás
para frente 

para trás

A trama da vida
nos fios
a teia de ilusões
nas mãos que se entrelaçam
ponto a ponto

Com afinco, com dedicação
Construindo a trama como fiandeira,
delicadamente, como se fosse a última
como se fosse apenas a primeira.


Ianê Mello

(
2010/2013)


*



Fotografia do espetáculo “A Tecelã”.


A Tecelã - Tecendo








domingo, 10 de fevereiro de 2013

CARNAVAL, ÓPIO DO POVO




Fartei-me das palavras
que ninguém quer ouvir
os batuques soam mais alto
que minha fraca voz

Retumbam em minha mente
ecoando insistentemente
ensurdecendo meus sentidos 

calando minha agonia e meus gemidos

Minha voz ficou rouca de tanto gritar
e serpenteando se perdeu no ar 
nada se ouviu do que tentei falar
e o que calei, guardei em meu olhar

Todos os ouvidos estão surdos
ensurdecidos pelos ruídos
das ruas, dos carros, dos cantos
do rufar dos tambores

Para que tanta alegria? 
Para que a festa?
Por que toda essa folia
se essa babel enlouquecida é tudo que resta?

Confete, serpentina, lantejoulas
brilhos ofuscantes, falsos diamantes
mulheres deslumbrantes 
altivas em seus palanques

Sobre(s)saltos sempre muito altos
no corpo o nu que predomina
no rosto  a dor que se disfarça
na máscara que a face oculta

Falsa alegria que contagia
mas não a mim, que agonia!
Não fui sequer convidada
imagina que pesar!

Carnaval ... falsa alegoria... 
alegria em fantasia  disfarçada
Fogo fátuo que queima 
pra tudo se acabar em cinzas


Ianê Mello
*

Pintura de Joan Miró

sábado, 9 de fevereiro de 2013

RISO PINTADO




Lá vem o palhaço
com seu  nariz vermelho
sua boca pintada num sorriso
Ele pula, brinca, ri
alegrando todos ao seu redor
A platéia aplaude pedindo bis
Mas acabou o tempo
o show já terminou
Desce a cortina do palco
e o palhaço já cansado
de brincar de ser feliz
pega  água e sabão
lava seu rosto pintado
e pelo canto dos  olhos
desce uma teimosa lágrima
e o palhaço agora só
sorri de sua dor.



Ianê Mello


*
Publicado originalmente em 
22.08.11.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

SÃO TANTOS OS CAMINHOS






O caminho das pedras
Quem conhecerá?
O caminho preciso
O caminho perfeito
O melhor caminho
Existirá?

Ah, o melhor caminho
É o que se faz ao andar
Passo a passo
Devagar...

Pé ante pé
Sem pressa
A paisagem apreciar
Colhendo flores
Sentindo espinhos
Plantando sementes
Para frutos semear

Passos leves
Passos firmes
Parar para descansar
No sombreado de uma árvore
O cansaço repousar

Retas, curvas, atalhos
Tantos para trilhar
Pés por vezes cansados
Doridos de tanto andar
Uma bacia de água quente
Um pouco de sal grosso
Poderá aliviar

Poderíamos ter asas
Para às vezes poder voar
Mas asas não temos
Fomos criados assim
Seres bípedes e terrenos

O que nos cabe fazer então?
Acertar o passo
E seguir adiante...
Para onde seguir?
Nunca se sabe


Ianê Mello

(01.02.13)

*

Pintura de autoria desconhecida.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ONDE CABE MINHA TRISTEZA





A minha tristeza cabe
em sonhos desfeitos
em intensos tremores
em profundos dissabores
na solidão compartilhada

A minha tristeza cabe
em procuras infindas
em tardes insalubres
em dislumbres febris
nos perdidos ardis

A minha tristeza cabe
em pontes para o nada
em estradas infindáveis
em caminhos tortuosos
no labiríntico viver

A minha tristeza cabe
em palavras suspensas
em perdidos amores
em insolúveis temores
no vazio derradeiro

A minha tristeza
Só não cabe mais
Em mim



Ianê Mello

(29.01.13)


*
Fotografia de Anka Zhuravleva