terça-feira, 28 de janeiro de 2014

BORDERLINE


De onde virá tamanha súplica?

O olhar esconde
o medo que atormenta
numa vida que desfaz
inúteis ilusões

Toda a espera
em noites perdidas
dormitando esperanças
entre insônias e temores

No tudo que resta agora
apenas a mudez que cala
a voz presa na garganta

Nada mais há de conter a dor
sufocada a agonia na alma
na vida que escapa
num breve instante
apenas por um fio

...

tênue linha divisória




Ianê Mello

(28.01.14)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

VOA POETA

" Eu nasci na vertical, mas o mundo é oblíquo."
(Popô)

(Ao Popô in memoriam)

Tendo as ruas como morada
Sem abrigo, sem conforto
um ser que não tinha nada
nem um lugar como porto

Sem um teto como abrigo
passava seus dias assim
temendo pelo perigo
de darem a sua vida um fim

A maldade alheia exposto
ainda assim conservava
um sorriso em seu rosto
a quem com ele falava

Dia e noite ao relento
tantas noites mal dormidas
coração sempre atento
as agruras desta vida

Tendo a fome como companhia
e a avassaladora solidão
também tinha a poesia
na palma de sua mão

Naquele simples homem havia
mais do que a fome derradeira
a inexplicável  sede da poesia
que até suplantava a primeira

Pois numa tarde qualquer
sua voz se fez calar
e hoje um verso sequer
ele nos pode ofertar

Ele se foi com o vento
num domingo sem aviso
deixando em meu pensamento
a grandeza de um sorriso

Em nós deixou a lembrança
difícil de se apagar
uma nesga de esperança
perdida em seu olhar

Pelas ruas sempre o buscaremos
com o brilho do nosso olhar
como a vida que não morre
apenas deixa-se resgatar


Seus versos, enfim, ganharam asas
Que o poeta possa voar!



Ianê Mello
(20.01.14)
 

domingo, 5 de janeiro de 2014

QUESTÃO DE TATO



Falta tato no toque
Delicadeza nas mãos
Que acariciam
Sensibilidade nas pontas
Dos dedos
Ritmo e leveza
Para um eriçar de pele
Um oriçar de pelos
Um estremecer de prazeres

Falta tato no toque
Paciência no reconhecimento
No corpo entregue
No momento presente
Sem pressa e sem demora
Na medida certa
No tempo preciso
Leveza e graça
Descortinando véus

É preciso tato no toque
Para desvendar segredos
Dissipar os medos
Afastar os temores
No corpo que pulsa
A espera branda
O anseio mudo
De estar no outro
Na arte do encontro

Ianê Mello
(04.01.14)


*

Fotografia: Cena do filme Ghost

sábado, 4 de janeiro de 2014

NATUREZA EXPOSTA





Corpo corre contra o tempo
Ávido voraz volátil
Dobras rugas marcas
Vestígios profundos tensos
Articuladas formas
Rígidos membros
Endurecidos tesos
Brutalmente embrutecidos
Sinalizam sinais sinas
Percorridos percalços
Insalubres dias
Natureza naturalmente exposta



Ianê Mello
02.01.14

*
 Pintura de Umberto Boccioni, 





quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

VERDADEIRA ESSÊNCIA




e eu que me julgava pronta
medos espantados
temores abrandados
rancores desfeitos

certezas alcançadas
e eu que me julgava firme
emoções sedimentadas
desejos satisfeitos
amores calculados
caminhos definidos

e eu que me julgava sábia
palavras proferidas
fantasmas esquecidos
dúvidas resolvidas
vida programada

e eu que me julgava tanto
me vi despida de vaidades
quando noutro olhar pude ver
a mais pura essência
do que sou refletida

Ianê Mello

(18.12.13)

*
Foto de Anna Clea