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sábado, 27 de abril de 2013

TENDO A NOITE COMO COMPANHIA




No silêncio de minha sala vazia
ecos de lembranças
permeiam minha memória
na noite que avança
na solidão das horas
no tique-taque do relógio

flashes de minha vida
em imaginária projeção
passeiam ante meus olhos
fitos na parede nua
entre a vigília e o sono

meu corpo recostado no sofá
num plácido repouso
sem desejos além do descanso
a boca num silêncio mudo
emudecido de palavras...

o que fora é silêncio
grita dentro em mim
coisas que só eu escuto
inaudíveis a ouvidos estranhos
incompreensíveis para muitos

sou eu mesma minha cúmplice
minha única parceira
nessas horas de torpor
entregue a intensos sentires

Assim, mais uma noite se passa
e a ela me entrego mansa
meu refúgio
meu abrigo
até o amanhecer de um novo dia.


Ianê Mello

(22.04.13)


*
Pintura de Adrian Gottlieb

domingo, 14 de abril de 2013

ACORDA BRASIL!!!




Não, eu não posso, não quero e não vou me calar!

Precisamos fazer ecoar as vozes das minorias, dos enjeitados, dos discriminados, dos subjugados, dos sacrificados em nome de um suposto progresso. Camuflar a realidade que vivemos em nosso país é o papel que tem assumido as autoridades governamentais.
Temos que bradar contra essa atitude covarde e tendenciosa dos que detêm o poder, que só demonstram, a cada ação, lutar por seus próprios interesses, e não em prol do nosso povo.
Não, não podemos e não devemos nos calar! Precisamos tocar nas "feridas" da nossa sociedade. As mazelas não existem para serem escondidas debaixo do tapete, para que os turistas não as vejam e para que o cidadão brasileiro mais abastado não seja forçado a conviver com elas, mas sim consideradas e avaliadas com humanidade, procurando-se formas de resolvê-las. Não vamos nos omitir e nos calar frente as atrocidades cometidas contra a nossa população, índios e moradores de rua. Todos somos cidadãos e temos os mesmos direitos.

Há que se respeitar os direitos dos cidadãos, independentemente de crença, condição social, cultura, etnia ou opção sexual. A população de rua não pode ser excluída como se fosse um estorvo, um entulho, sendo removida e alojada em abrigos com problemas de superlotação e insalubridade, além da presença de pacientes psiquiátricos sem atendimento adequado. São seres humanos, cidadãos como nós, com seus direitos usurpados, que passam privações da pior espécie.
Há que se respeitar os índios em suas justas reivindicações, dando-lhes condições de moradia e respeitando a sua cultura e não tratado-os com total desconsideração e desumanidade como se fossem bandidos que precisam ser punidos, apenas por terem uma cultura e necessidades diferentes do homem branco.
Não se descarta seres humanos como se fossem lixo, varrendo-os para debaixo do tapete, com a clara intenção de escamotear uma triste realidade em que se encontra o nosso país, ignorando as reais necessidades dessas classes sacrificadas que, em manifestações pacíficas clamam por justiça social com a única arma que possuem: a palavra.
Há pessoas que se surpreendem e perguntam: Mas o que eu posso fazer?
Ora, meus amigos, o mínimo que podemos fazer é juntarmos nossas vozes a esses que clamam e em uníssono, manifestarmos através de palavras e atos, o nosso repúdio a tais medidas. Participando de manifestações públicas, utilizando os locais a que temos acesso para mostrar nossa indignação: a internet, o facebook e outros meios de que possamos dispor. Isso é fazer a nossa parte, mostrando nossa indignação e solidariedade. Não vamos simplesmente cruzar os braços e nos omitir, pois estaremos compactuando com tais atitudes. Não esqueçamos nunca que poderíamos estar no lugar dessas pessoas.

Acorda Brasil!!!
Pelos direitos humanos!!!
Por uma sociedade mais justa!!!


Ianê Mello
(14.04.13)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

PALAVRAS




O que sou sem as palavras?

sou barco sem porto
sou rio sem água
sou pássaro sem asas
sou amante sem amado

sou céu sem estrelas
sou flor sem perfume
sou filha sem mãe
sou mulher sem amor

sou noite sem dia
sou corpo sem forma
sou árvore sem folhas
sou vida sem vida

sou só sem poesia


Ianê Mello

(08.04.13)

sexta-feira, 1 de março de 2013

DESTINO DO POETA





Vento venta ventania
Cabelo no rosto na luz do dia
Desperto desprendo deságuo
Poesia é momento
É fardo é fato é fado
Sentimento safado
De doer até os ossos
De roer por dentro a carne
Músculo e face
Dormente palavra arde
Crepita pulsa sanguínea
Palavra que desalinha
Tece a trama
Arranha a teia
Urdidura e drama
Na cabeça cheia
Versos dissonantes
Louca melodia
Distorcidos amantes
Na cama vazia
Claro que quero
Um pouco mais
De tudo sempre
Um solo um blues um uivo rouco
Coração desenfreado
Poeta louco
Leminski que me acuda
Que a lua branca e muda
Já se esconde em meu olhar
E o que delira em mim
É o lobo que espreita
Estepe esteio êxtase
Viver é uma questão de sentir
Desconstrução do real
Naufrágio lento
Tudo o mais é silêncio
 Fechar os olhos
 Dormir em paz


Ianê Mello

(06.02.13)

*

Arte de Igor Morski.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

ENTREGUE AS CHAMAS



Ao cair 
da tarde
arde

...

como fogo
em brasa

e do corpo 
febril
lassidão
devora

antes de ir
embora

como lava
magma
vulcão
em erupção

adentra
esquenta
explode

...

em fogos
não artificiais

 artifícios
artefatos
da paixão

que emana
clama

...

em sua urgência



Ianê Mello



*

Pintura de Georgia O' Keefe





(Publicação original em 04.01.11)


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

APENAS UM SOPRO





Um sopro apenas
uma pequena passagem
um encontro fugidio
nada mais...

uma fagulha no tempo
um átimo de momento
um brilho transitório
tão fugaz...

Essa é a vida que pulsa
urge por ser vivida
pois se hoje é vida
amanhã jaz

restando a alma
que esse corpo habita
não mais prisioneira
buscar um pouco de paz


Ianê Mello

(28.01.13)

*

Fotografia de Amber  Ortolano.


A VIDA ARDE





como conter a sede
e afogar a dor?
a vida é sangue e sal
ferida aberta
carne exposta
olhos baços
mãos sós
fatigado corpo
enrodilhado em si
frio  de amores  vagos
escassos  perfumes
em noites  insones
inquieta  procura
silencioso  amanhecer
a  vida é vidro e corte
fuga  eterna e insana
do  que se chama morte



Ianê Mello

(26.01.13)


*
Fotografia de Anka Zhuravleva




segunda-feira, 29 de agosto de 2011

CORA MENINA




Para Cora Coralina


Cora, Cora, Coralina
por dentro sempre menina
em seu sorriso a  candura
em seus atos a bravura
da interiorana mulher

Com suas mãos preparava
os docinhos mais gostosos
e com as mesmas compunha
os versos mais primorosos

Mexendo o doce no tacho
escrevendo em seu caderno
sua grande sabedoria
na simplicidade se revelava
na mulher de doces olhos
que a todos encantava.


Ianê Mello