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sábado, 7 de novembro de 2009

Reconhecimento do Humano



Quando cheguei no recinto, percebi um burburinho de vozes. Todos murmuravam, de forma quase inaudível, com se não quisessem ser ouvidos. Fui entrando devagar, um pouco tímida e temerosa do que me aguardava. Não me sinto muito bem em lugares repletos de pessoas. Ainda mais assim, dessas que falam contidas e entredentes, segredando palavras que não podem ser reveladas.
Senti os olhares pousarem sobre mim, como garras, de forma crítica e perscrutadora " quem será essa intrusa que ousa interromper nosso conchavo?"
Olhos de abutres com fome de carne fresca e saborosa, pois logo perceberam que eu não fazia parte dessa alcatéia. Mas como estava bem viva, dentro embora, um pouco assustada e deslocada, o que era natural, resolveram fingir não notar minha presença, enquanto calculavam o momento certo do abate.
E eu, apesar de única nesse ambiente inóspito, me muni de coragem e lá continuei, pois queria conhecer o outro lado, sombrio e meu desconhecido.
De igual forma os observava, como se invisível fosse, visto que assim preferiram.
O ambiente era suntuoso, como suntuosas suas vestes e jóias caras. Seus rostos plastificados, onde cada expressão mais parecia uma nova máscara que assumia suas faces por um breve momento.
Me servi de uma bebida de gosto amargo, quase como fel e imaginei suas línguas viperinas e suas bocas sedentas das quais escorria tal veneno. Haveria antídoto para tal picada ou seria mortal?
Correria eu risco de vida? Seria esta minha empreitada letal?
Bem, há riscos que se precisa correr e resolvi assumí-los, pois coragem nunca me faltou.
De repente, avistei ao fundo uma figura. Ela estava num canto, como que desprezada e esquecida pelos demais. Percebi que, como eu, não se enquadrava naqueles padrões. Resolvi, então, dela me aproximar. Conforme mais perto chegava, mas nítida sua imagem ficava. Era uma criatura de pequeno porte. Em suas vestes simples, habitava a humildade. Seu rosto, ao contrário dos demais, não era plástico, expressava dor profunda e sentimentos humanos. Quando me olhou, não desviou os olhos... fixou os seus bem dentro de mim e assim se manteve. Por segundos, minutos, horas, não saberia dizer. Parecia que o tempo havia parado.
Naquele local tão inóspito, de repente, havia encontrado minha razão de estar ali.
Prendi suas mãos entre as minhas e ainda perdida em seus olhos, sorri. Para minha alegria, seu rosto se iluminou em retribuição. Nos demos as mãos e, lado a lado, caminhamos por entre aqueles espectros humanos, com um sorriso nos lábios e leveza no coração.
Saímos pela porta entreaberta, onde podíamos avistar uma branca luz e buscamos o caminho de casa. Nossas almas estavam serenas e nosso coração em paz.

                                                                                                   Ianê Mello                                                                                                               



  Reciclado para "Fábrica de Letras" em 27.01.2010 .