sábado, 7 de novembro de 2009

Incandescência da Paixão











Esse fogo que queima no peito 
por ser paixão se dissipa
Incandesce até cinzas virar
pois queima até a exaustão
Breve em seu fogoso momento
faz do corpo sua morada
Nele se manifesta em desejos
em rituais apaixonados
Vertigens causa por inebriar
como fosse bebida alcoólica
turvando os sentidos
privando a razão
E assim como surge
se vai um dia
quando esse fogo não mais queima
e a alma permanece vazia.






Ianê Mello



Para onde foi




Um dia ele chegou com o olhar mudado. Desses que provocam calafrios e nos levam a pensar "O que terá acontecido?"
Me aproximei de mansinho; como um gato. Acerquei-me de seu corpo e o abracei.
Seus braços mal conseguiam enlaçar minha fina cintura. Parecia que correspondia por pura obrigação, porque seria estranho não fazê-lo. E eu fiquei assim atônita, sem saber o que pensar.
Aqueles mesmos braços que sempre me abraçaram com tanta ternura e, em certos momentos, com tanta paixão. Desvencilhei-me com facilidade de seus braços frouxos e sem vontade. Meus olhos já estavam rasos d'água e não queria que ele me visse chorar.
Queria respeitar-lhe o tempo em que se sentisse capaz de expor seus reais sentimentos, ou, quem sabe, a falta deles.
Como dois corpos podem estar presentes no mesmo espaço e tornarem-se tão distantes suas almas? Como podemos nos tornar dois estranhos quando um dia fomos tão íntimos?
Como o amor que um dia nos une deixa de existir, deixando em seu lugar um espaço vazio que torna-se difícil de preencher?
Fui até a varanda e deixei a brisa do vento secar minhas lágrimas. Respirei fundo e pensei comigo mesma"É o fim". Fim de mais um romance de amor. Mais uma ilusão que se dissipou na poeira do tempo. Agora, vai ficar apenas a saudade de um tempo que passou e as recordações de momentos felizes que vivemos.
O vazio entre nós se fez presente e me senti como um barco à deriva, sem porto.
E meu coração apertado, sangrou.


Ianê Mello

SE ASSIM FOSSE...

 
se esse ar que me falta
me tomasse de assalto
olhos, pele e pelos
seria como música
aos meus surdos ouvidos
seria como pintura
aos meus cegos olhos
pois se de amargo fosse doce
a vida numa mesura
seria como se fosse
de uma beleza pura

Ianê Mello


*
Pintura de Toulouse Lautrec


Publicado originalmente em 07.11.09.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A Outra em Mim




Será que sou eu mesma
ou será outra?
Essa que em mim habita
e me tira do sério
Que perde o controle e grita
Que faz um quê de mistério
Que agita as mãos no ar
tentando algo alcançar
que nem mesmo sei o que é
Que tudo quer...
e nada tem
Que vai muito mais além
em seu silêncio de morte
Que maldiz a própria sorte
e nem mesmo quer falar
Que insatisfeita resmunga
achando a vida um saco
Que não para de bradar
que o cansaço a venceu

Será que é mesmo outra
ou será que sou eu ?





Ianê Mello









terça-feira, 3 de novembro de 2009

No Velho Porão da Memória





O sorriso estampado no rosto
que a foto captura num flash
ao desatento pode enganar
fazendo pensar que é alegria
e não um sorriso imposto
apenas para a foto posar

O retrato de um momento
de um átimo de segundo
em que o sorriso se fez
E o rosto se faz máscara
que o breve instante registra
numa polaróide qualquer

E o que fica é o registro
que o falso sorriso eterniza,
como fosse uma pintura,
quem sabe uma Monalisa

E o tempo se encarregará
de torná-la esquecida
numa gaveta qualquer
em qualquer canto da casa
em qualquer parte da vida
resguardando a estória

E o sorriso que era falso
na foto amarelecida
para sempre estará
no velho porão da memória


Ianê Mello


Ouça: Leoni "Fotografia"



Reciclado para   " Fábrica de Poemas "   em 20.01.2010.