domingo, 16 de janeiro de 2011

HORA DA PARTIDA


Pode ser que na hora H eu desista
mas meus olhos me esconderão a verdade
O rosto coberto por fino tecido
como fina a tecitura de uma vida
Se meus olhos vislumbrassem o que estou a cometer
minha coragem se faria fraca
e meu arrependimento eterno
A água que envolve meu corpo,
fria como a morte que busco,
ao mesmo tempo acalenta essa dor
a dor de não poder mais Ser
O tempo me chegou...
essa é a hora
Preciso ir-me, sem mais demora
Da vida já sorvi o último gole
e o gosto era amargo como fel
Não lamentem minha partida
Foi bem pensada e sentida
O que da vida obtive foi o que pude
No mais, nada me ilude.




Ianê Mello

O ENTARDECER

Tela de Giorgio Dichirico




Sombras ao cair da tarde
se projetam nas ruas:
das casas,
da menina e seu bambolê,
de uma estatueta na praça,
de um árvore frondosa.
Sombras da tarde
ocultam silêncios,
revelam desejos.
Nas casas e vilarejos
pessoas sós, encimesmadas,
famílias reunidas, acaloradas,
um casal apaixonado,
um bebê adormecido,
uma mulher que chora...
E o dia se queda morno
até tudo se tornar escuridão
tendo a noite como companhia.


Ianê Mello

sábado, 15 de janeiro de 2011

CAMINHO DO SER




Resvala.
Recorre. Retem.
Ressurge. Recozija. Recobra.
Recupera. Regenera. Reduz. Rechaça.
Recompõe. Retrata. Repõe. Retranca. Retórica.
O gozo. O gosto. O sal. O pelo. O solo. O soco. O caos.
O corpo. O vício. O início. O sim. O não. O talvez. O capricho.
A vida. A morte. A espera. A plenitude. A ânsia. A loucura. A virtude.
O dia. A noite. A foice. O abrigo. A casa. A estrada. O pão. A escada.
Na porta. Na cama. No quarto. No sono. Na vigília. No sonho.
No vazio. No abandono. Na prisão. Na casca. No ventre.
A semente. A fruta. O alimento. A fome. A sede.
A dor. O amor. A fera. A bela. O frio. O calor.
O ser. O nada. O tudo. O impróprio.
A chama. O sol. O farol.
A luz. A estrela.
O encontro.




Ianê Mello

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

PRIMEIRO ATO

Pintura de Rene Magritte


Têmpora
            nua
           crua
           cruel
                  fria


Tempo
  esquivo
     cativo
           volátil
                   ilimitado


Na têmpora desvanecida
Nua tez de emoções
Crua como estopa
Cruel ao envelhecer
Fria em impressões


No tempo que vaga
Esquivo que escapa
Volátil como o ar
Ilimitado em sua finitude


Seca o ar o suor
da tez fria e nua
No tempo que se faz
cativo em agoras
No ar que escapa
em profundos ais
em noites mal dormidas


Na crueza das horas
um grito atento
no delimitar as linhas
que no rosto se apegam


É chegada a hora
nos minutos sem perdão


Cai o pano


...


finda o ato



Ianê Mello

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

MAR EM NÓS

Pintura Winslow Homer


 
Mar
marés
vazantes e cheias
maremoto
revolta das águas
numa dança
sem perdão


a força das águas
tudo a arrastar
ao derredor

........


quedas impiedosas

 ........


mar bravio
engolindo corpos
árvores
carros


devastando
sonhos
posses
egos

 .........



imbatível natureza
tragando
insanos e sãos
poderosos ou não
sem diferenciação
de credo
de cria
de poder


igualados na dor
à todos
só resta



a HUMANIDADE.





Ianê Mello