sábado, 27 de outubro de 2012

MÁSCARAS QUE CAEM




Artefatos de artifício
pele que escamoteia
jogo de esconde-esconde
lobo em pele de cordeiro
máscaras que encobrem rostos
tudo é maya, tudo é ilusão
a imagem criada
a linguagem inventada
puros disfarces do real
personagens encenados
num palco montado
somente para a platéia
artistas treinados
saboreiam aplausos
e a dor se esconde
mas ao final do espetáculo
cai o pano, acaba a cena
a platéia se retira
e no chão espalhadas
as máscaras se tornam inúteis


Ianê Mello

(24.10.12)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

NA ESTAÇÃO





Fim de tarde. Todos apressados saem de seus trabalhos. Caminham pelas ruas ligeiramente. A estação de metrô fervilha. Pessoas são como formigas amontoadas a espera do próximo vagão. Há que se ficar esperto para conseguir entrar. E eis que ele chega: já lotado. As pessoas se empurram e se comprimem buscando um espaço que não existe. Parece impossível acreditar que ainda cabe mais um corpo nesse espaço. Mas cabe, tem que caber! O sinal apita. A porta fecha, forçando a entrada ainda mais. Colados no vidro rostos e corpos de expressão cansada mais parecem peixes num aquário. Dentro, uns comprimem-se contra os outros, apertam-se, espremem-se, até quase formarem uma massa compacta, onde não se distinguem mais os corpos, onde um começa e o outro termina. Os cheiros, os rostos, os corpos se misturam, confundem-se, mesclam-se. Uma mulher sente falta de ar. Começa a passar mal e grita. Mas o que fazer? O jeito é esperar a próxima estação. Quando ela chega, a mulher tenta em vão sair...impossível. A massa humana já a espera na estação empurra ela de volta. Nisso, em movimento contrário, um homem de idade é empurrado para fora do vagão. Ele resmunga e tenta entrar de novo, também em vão. Tudo o que resta é cada qual conformar-se, manter a calma e a paciência, respirar bem fundo, fechar os olhos e esperar chegar ao seu destino. Não há nada que se queira mais nessa hora do que chegar em casa, tomar um bom banho, comer um bom prato de comida, assistindo um pouco de televisão. Depois, uma boa noite de sono, para recuperar as energias para enfrentar um novo dia e, com muita sorte, uma volta para casa mais tranquila. Mas do que podemos reclamar afinal, temos uma casa, comida e todo o conforto de um lar, enquanto tantas pessoas nem ao menos isso tem, não é mesmo?


Ianê Mello

(24.10.12)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O DIA DE CADA UM




A tarde já caía. Era outono. Folhas secas formavam um tapete amarelado por todo o parque, cobrindo o que antes era um verdejante gramado. As crianças gostavam de pisá-las, sorrindo felizes ao ouvir o barulho que faziam. Como pode uma criança divertir-se com tão pouco! Sentado num velho banco de madeira, um senhor de meia idade lia um livro totalmente absorto, parecendo que nada ao seu redor poderia lhe chamar a atenção. Dentro de seu carrinho de passeio, um bebê observava maravilhado tudo a sua volta. Com olhinhos de curiosidade ele olhava as copas das árvores, os pássaros, as crianças, movendo sua cabecinha prá cá e prá lá. Afinal, tudo para ele era uma grande novidade! Sua babá, ao contrário, empurrava o carrinho enfastiada, doida para voltar para casa. Ainda tinha tanto o que fazer, tantas obrigações a esperavam. E assim mais um dia findava. Para uns, com muitas alegrias e surpresas. Para outros, infelizmente, apenas mais um dia, como qualquer outro dia.


Ianê Mello

(24.10.12)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

POEMA FECUNDO




O que cabe no poema?

A fome de pão
O amor em vão
O sim e o não
Uma nova invenção?

O que cabe no poema?


A caristia
A sangria
A cama vazia
A vida vadia?

O que cabe no poema?


O temor
O rancor
O torpor
O ardor?

O que cabe no poema?


O verso
O transverso
O reverso
O diverso?


O que cabe no poema?

O diário
O salário
O escapulário
O salafrário?

O que cabe no poema?


O sentido
O perdido
O contido
O pervertido?

Mas afinal, o que cabe no poema?

O tudo, o nada
O simples, o complexo
O silêncio, a palavra
O real, o imaginário,
no poema tudo cabe.

O poema
é útero fecundo
é mãe parideira
é o verbo e o verso
é a arma e a flor

O poema arde
O poema invade
O poema sangra
O poema é vivo
e pulsa...


Ianê Mello
(24.10.12)


*
Pintura de Frida Kahlo 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

CERTAS CANÇÕES




Ouço uma voz que entoa canções
enquanto a nostalgia me envolve
numa carícia aveludada em notas sutis
em pureza d’alma que transborda emoções

Voz que o vento traz de longe, muito longe
em vagas e doces lembranças que ressuscitam
como folhas amarelecidas sob meus pés descalços
que ao mais leve pisar farfalham docemente

Certas canções me deixam assim
trazem em si uma saudade dolorida
no despertar das paixões adormecidas
já maturadas pelo tempo que se foi

Nos amores que passaram sem aviso
e ao cair da tarde, no outono da vida,
revolvem suaves lembranças na alma
da partida que se fez em silêncio


Ianê Mello


Inspirado na canção “Uma voz no vento”- Leila Pinheiro
http://www.youtube.com/watch?v=wilwYraG6A0




*
Pintura de Johnny Palacios Hidalgo