segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sem Pudor



Tua pele
nua
flutua
Universo em desencanto
Brilha
Na noite
escura
Cá dentro
O pranto

Pele nua
Crua
Exposta
Na vazia
Rua
Onde componho meu canto

Escura
Rua
Solidão
Da lua
Imensidão
Do céu
Fazem brilhar
Teus olhos
Descortinando
Teu véu

Teu rosto
transparece
pálido
fugidio
em sua dor

Tuas mãos
estendidas
num apelo
Pedem um pouco
de amor.


Ianê Mello


domingo, 6 de setembro de 2009

Passagem do tempo


O tempo que passa
sem nada esperar
Esse tempo matreiro
na vida a girar
Passa rápido, passa lento...
Corre justo no momento
em que era pra parar
e quando desejamos que corra
se arrasta bem devagar

Tic-tac, tic-tac
Faz o relógio a brincar
no passar de cada hora
seus ponteiros a marcar
Desperta em nós a vontade
de aproveitar sem demora
a vida a cada instante
vivendo somente o agora
pois o tempo é constante
e em sua passagem não perdoa
aquele que não vive "numa boa".

Ianê Mello

A Procura de Mim

Não pense que estou louca
Se quebrar coisas inúteis,
Se rasgar a minha roupa,
Se sorrir de coisas fúteis.

Não pense que perdi a coragem
Se no meu quarto me trancar,
Partindo em longa viagem,
A sete chaves me guardar.

Não pense que estou no fim
Se para a dor compreender
Me fechar dentro de mim,
Para aprender no sofrer
Que há vida mesmo assim.

Não pense que estou perdida
Se levar minha vida a esmo,
Como quem sem esperanças
So vive para si mesmo.

Não pense que me isolo
Para nunca mais voltar,
Pois se hoje sozinha choro
É por querer me encontrar.


Ianê Mello

Elo Perdido


O silêncio a preencher a sala vazia,
cheia de palavras presas na garganta.
A boca seca, emudecida pelo medo.
Sentimentos encarcerados dentro do peito.
Os olhos embaçados fitos no chão escuro.
As mãos sobre o colo tricotam imaginariamente o ar.

Por que calar as palavras tão sentidas?
Por que aprisionar os sentimentos?
Por que não olhar nos olhos do outro alguém?
Por que com as mãos não se tocar num abraço?

O amor permeia esses corpos
rígidos em sua própria dor,
tementes da entrega que cura.
Esse mesmo amor que um dia
enlaçou seus corpos como um só
fazendo-os sorrir de alegria e prazer.

Quando exatamente se perderam um do outro
e se acostumaram com o silêncio que se instala
entregando-se à essa inércia que devora?
Quando seus olhos deixaram de se olhar com ternura
e seus lábios não mais se tocaram?
Quando seus corpos tremeram de frio na cama vazia e sem amor?

Ianê Mello

sábado, 5 de setembro de 2009

Em Flor



Quando a chuva cai e a noite vem
sinto o frio em minh'alma
nas horas que escoam...
na solidão das mãos nuas.
Dentro de mim a saudade,
doída e latente.
Mas saudade de quê?
Não sei responder.
De tudo, de nada
daquilo que nem sequer vivi.

Podem pensar que estou louca
num sentir tão sem sentido
mas para mim não importa.
Não quero a sensatez dos sãos.
Quero antes a loucura dos insensatos.

Certeza só tenho
daquilo que não sei;
dessa busca incessante
por uma lógica que me dê equilíbrio.
Equilibrista que sou,
sempre na corda bamba.
Minha vida por um fio.
Mas não faz mal...
apenas sou o que sou.

Essa aventura constante
pelos labirintos da alma.
Sem começo, sem fim.
O que me importa é o meio
e deste faço meu eterno recomeçar.
Sou como as rosas...
Me acostumei com as podas
e nelas me fortaleço
para florescer ainda mais bela.

Ianê Mello