quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Intenso Sentir






Esse sentir  tão sentido
Cala bocas, fecha olhos e ouvido
Emudece o coração
Nesse sentir está o sentido
da vida na solidão
e quem conhece o gemido
da dor que habita o ser
não desconhece o sentido
de quem sente seu viver


Ianê Mello







Da Distância que separa




E a distância entre eles se fez. Como se constroem muros de concreto. E se preencheu de vazio.
A ternura, antiga companheira, cedeu lugar a rotina que entre eles se interpunha, como um visgo que não sai mais. E os dias e noites tornaram-se iguais: dias sem sol, noites sem lua.
Nuvens espessas vagavam sobre suas cabeças cheias de pensamentos vãos. De suas mãos nuas já não brotavam flores; terra árida, jardim sem flor. E na solidão das noites nuas, instalou-se a dor do pranto: calado e contido.
Se ao menos as lágrimas pudessem rolar sobre suas faces lívidas e aliviar-lhes o sofrimento... mas não.
Corações amortecidos, acostumados ao sofrer, apenas registravam mais uma desilusão. Sentimentos embotados, corpos anestesiados pela ausência de carinho. E a cada gesto não expresso, a cada palavra não dita, a cada toque não dado, fazia aumentar a  distância que entre eles já havia.
Sem se darem conta se perderam na estrada que um dia trilharam juntos e suas mãos se apartaram e seus olhares vislumbraram diferentes trilhas.
Na distância que os separa, o amor se fez cativo. Estranhos se tornaram e não mais puderam se reconhecer, perdidos nos descaminhos.


Ianê Mello


Ouça: A medida da paixão( Pedro Camargo Mariano)

domingo, 8 de novembro de 2009

Cada Sorriso...um flash

 



"Presta atenção
Olha pra cá
Agora um sorriso
Vamos lá, é pra foto!
Olha o passarinho..."
Click...









  




O que não fazemos por uma boa foto... Com vontade ou não estampamos no rosto um sorriso amarelo. Mas tão amarelo que dá dó! Depois, ficamos com aquela cara de pateta, de quem acabou de "forçar a barra" consigo mesmo.
E pra quê? Me diga. Qual o real objetivo?
Ficar mais bonitinho, mais simpático, com carinha de feliz?
Pra quem? " Pra Inglês ver?"
É... é duro o que temos que fazer para aparentarmos aquilo que não somos e o que não estamos sentindo.
E a foto? Revelará nossa falsa alegria? Ou quem sabe revele nossa imensa falsidade?
Sabe aquelas fotos que vemos e achamos forçadas. Expressão forçada, sorriso forçado, tudo extremamente sem naturalidade. Aliás, o posar pra foto já é anti-natural.
Boas são aquelas fotos que nos tiram de repente, sem a gente esperar; no flagra. Flagrantes da vida! Que digam os Paparazzi!...
Bem, mas como não sou famosa, só sou pega de surpresa assim de vez em quando e sai cada foto!...
Pode imaginar?...
E toda essa prosa só porque ouvi " Desafinado ".
Olha só esse trechinho: "... fotografei você na minha roleyflex, revelou-se a sua enorme ingratidão..."
Pois é. Na foto dele, a ingratidão se revelou. O fotógrafo devia ser muito bom!...


Ianê Mello





Ouça: Desafinado ( Sergio Mendes e Bossa Rio)

Quando é chegada a hora





















Num jogo de xadrez
está a sua própria sorte
porque o destino o fez
barganhar com a própria  morte
Que chances poderia ter 
de sair desse jogo vencedor?
Se no tabuleiro pudesse ver
morreria só de pavor 
A cada peça movida
em jogada bem pensada
arrisca  a própria vida
ao mover a peça errada
E a morte, sua parceira
nesse improvável acerto
do outro lado sorrateira
se ri desse desconcerto
Quando é chegada a hora
não há barganha qualquer
a questão é ir-se embora
com a brandura que puder
Rebelar-se é em vão
melhor o fato aceitar
Entregar-se a razão
e deixar-se descansar




Ianê Mello




















Cena do filme " O sétimo selo" de Ingmar Bergman


Curiosidade:  "O título é uma referência ao capítulo oito do livro das revelações. A história é simples. Um Cavaleiro e seu Escudeiro voltam das Cruzadas. O país está assolado pela peste. Eles se encontram com a Morte e o Cavaleiro faz um trato com ela: enquanto conseguir contê-la numa partida de xadrez, sua vida será poupada."


sábado, 7 de novembro de 2009

Reconhecimento do Humano



Quando cheguei no recinto, percebi um burburinho de vozes. Todos murmuravam, de forma quase inaudível, com se não quisessem ser ouvidos. Fui entrando devagar, um pouco tímida e temerosa do que me aguardava. Não me sinto muito bem em lugares repletos de pessoas. Ainda mais assim, dessas que falam contidas e entredentes, segredando palavras que não podem ser reveladas.
Senti os olhares pousarem sobre mim, como garras, de forma crítica e perscrutadora " quem será essa intrusa que ousa interromper nosso conchavo?"
Olhos de abutres com fome de carne fresca e saborosa, pois logo perceberam que eu não fazia parte dessa alcatéia. Mas como estava bem viva, dentro embora, um pouco assustada e deslocada, o que era natural, resolveram fingir não notar minha presença, enquanto calculavam o momento certo do abate.
E eu, apesar de única nesse ambiente inóspito, me muni de coragem e lá continuei, pois queria conhecer o outro lado, sombrio e meu desconhecido.
De igual forma os observava, como se invisível fosse, visto que assim preferiram.
O ambiente era suntuoso, como suntuosas suas vestes e jóias caras. Seus rostos plastificados, onde cada expressão mais parecia uma nova máscara que assumia suas faces por um breve momento.
Me servi de uma bebida de gosto amargo, quase como fel e imaginei suas línguas viperinas e suas bocas sedentas das quais escorria tal veneno. Haveria antídoto para tal picada ou seria mortal?
Correria eu risco de vida? Seria esta minha empreitada letal?
Bem, há riscos que se precisa correr e resolvi assumí-los, pois coragem nunca me faltou.
De repente, avistei ao fundo uma figura. Ela estava num canto, como que desprezada e esquecida pelos demais. Percebi que, como eu, não se enquadrava naqueles padrões. Resolvi, então, dela me aproximar. Conforme mais perto chegava, mas nítida sua imagem ficava. Era uma criatura de pequeno porte. Em suas vestes simples, habitava a humildade. Seu rosto, ao contrário dos demais, não era plástico, expressava dor profunda e sentimentos humanos. Quando me olhou, não desviou os olhos... fixou os seus bem dentro de mim e assim se manteve. Por segundos, minutos, horas, não saberia dizer. Parecia que o tempo havia parado.
Naquele local tão inóspito, de repente, havia encontrado minha razão de estar ali.
Prendi suas mãos entre as minhas e ainda perdida em seus olhos, sorri. Para minha alegria, seu rosto se iluminou em retribuição. Nos demos as mãos e, lado a lado, caminhamos por entre aqueles espectros humanos, com um sorriso nos lábios e leveza no coração.
Saímos pela porta entreaberta, onde podíamos avistar uma branca luz e buscamos o caminho de casa. Nossas almas estavam serenas e nosso coração em paz.

                                                                                                   Ianê Mello                                                                                                               



  Reciclado para "Fábrica de Letras" em 27.01.2010 .