quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CHUVA QUE CAI



A chuva cai mansa
em gotas cristalinas
tilintando em cores
amarelo, azul, vermelho
dos guarda-chuvas abertos
sobre as cabeças dos transeuntes

Nas ruas brilham poças d’água
gotas límpidas como carícias
escorrem nas janelas das casas
nos vidros dos carros
nas folhas das árvores
nas penas dos pássaros

No rosto da moça gotículas suaves
confundem-se com lágrimas
em seu triste semblante
Em suas costas nuas escorrem
provocando um leve arrepio

Assim a chuva vem
em meio a tarde nublada
E com ela lava o pranto
em dias de sol resguardado


Ianê Mello

(09.10.12)
Pintura de Melanie Florio



terça-feira, 9 de outubro de 2012

PERFEITA COMUNHÃO





Uma obra de arte
a alma do artista revela
seja numa aquarela
em cores e matizes
em formas e contornos
seja num poema
em palavras combinadas
em versos que se alinham
Momento de profunda comunhão
quando ao toque de duas almas
artista e apreciador se encontram
Numa fusão de pura magia
a arte se torna plena e se eterniza
O artista se desnuda para aquele
que intensamente o contempla
e assim a arte se manifesta.


Ianê Mello


*
Pintura de Marga Céndon



ALMA INQUIETA





Quem vai salvar minha alma agora
nos caminhos tortuosos e sombrios
nos becos escuros e sem saída
nos passos perdidos a esmo?

Minha alma clama liberdade
chama pela fé que acalma o espírito
Mas como suportar esse torpor
essa coisa quente correndo nas veias?

Mas como suportar esse batimento acelerado
essa nuvens que cobrem minha retina
esse tremor nas mãos nuas e frias
essa destemperada aflição que me preenche?

Como suportar esse vazio de vida
essa busca de algo inexistente
esse querer que não se define
essa prisão que oprime?

Quem vai salvar minha alma agora
se desde que me entendo no mundo
essa solidão no peito me devora
e esse grito preso não quer se calar?

Onde encontrar um abrigo farto
um afeto que seja puro e exato
na medida certa para o meu desejo
em braços que acolham sem medidas?

Quem vai salvar minha alma agora
enquanto o silêncio se resguarda
em palavras não pronunciadas e omissas
enquanto o corpo pede mais espaço?

No chão de cimento e pedras
calejo meus pés sem descanso
Na ternura não encontro meu remanso
nem nas noites que se erguem como sombras

Meu corpo adormece no cansaço das horas
ao sono me entrego sem resistência
Tomara este possa acalmar a inquietude
em meu coração de sal e sangue


Ianê Mello

*Desenho de ERIKA KUHN


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

DE IMPROVISO




E como preciso
de um improviso preciso
que me tome de assalto
assim sem quê nem porquê
sem espera
de repente
como ventania
espalhando nuvens
voejando folhas secas
despertando sentires

Um improviso preciso
no exato momento
em que nada se espera
e o tudo ganha forma
tingindo a tela nua
de matizes inesperados
de sonhos não moldados
emoldurando desejos

E como preciso
de um improviso preciso
sem eira nem beira
sem aviso prévio
sem anunciação
que me rasgue as vestes
que me turve a visão
que desvende verdades
que derrube as grades
desse tempo-prisão.

Ianê Mello 

* Pintura de Duy Huynh

sábado, 6 de outubro de 2012

TECITURA DE PALAVRAS



As palavras se perderam no vácuo
como se perdem os afetos mal cuidados
como se perdem os amores mal vividos
como se perdem os sonhos abandonados

As palavras se perderam no vácuo
e em seu lugar um vazio tamanho
sentimentos que não encontram expressão
onde o silêncio toma formas assustadoras

Onde estarão as palavras?
Palavras que não se mostram
omissas em sentires obscuros
perdidas em ternuras escondidas

Palavras difusas
Palavras cortantes
Palavras amáveis
Palavras indóceis

Palavras sentidas
Palavras confusas
Palavras vibrantes
Palavras profusas

Aguardo, nas entrelinhas adormecida
a palavra que de súbito me tome
e de mim se aposse com vontade
presa fácil em sua teia de veludo


Ianê Mello

(06.10.12)