segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PROMESSAS DE OUTONO





Eles eram um casal. Um casal normal como qualquer outro casal vindo de um longo relacionamento. Já estavam juntos há  vinte anos. Alguns desses felizes, outros não. Estavam acostumados um com o outro e não sei se isso é bom ou ruim, na verdade. Nada no comportamento do outro surpreendia. Era tudo previsível demais. Essa previsibilidade tornava sua convivência estável e, por vezes, monótona. A monotonia pode ocasionar para alguns um desejo por novidades, por algo que abale as estruturas. Isso pode gerar um problema. Ele sabia de cor todas as linhas de seu rosto amado. Sua testa larga, seus profundos olhos castanhos, seu nariz afilado, sua boca fina e rósea, seus cabelos castanhos emoldurando seu rosto como uma bela moldura num quadro. Bela mulher! Madura já em seus traços, afinal, tinha cinquenta e dois anos. Madura e bela. Seu corpo bem torneado, cintura fina, seios pequenos e largos quadris, seguidos de longas e bem feitas pernas. Corpo desejável e belo, embora maduro. Ele a queria muito. Tinha certeza de seu amor por ela. Nessa mulher encontrara a paz para os seus dias. Mas era tanta paz que às vezes incomodava. Por que será que a paz incomoda? Não é, afinal, a ela que almejamos? Contradições do ser humano. Quando a encontramos, dá uma coceirinha estranha para que algo abale essa paz conquistada. Vá lá saber o porquê! Assim ele se sentia. Mas a amava acima de tudo. Não poderia sequer supor perdê-la. Isso o impedia de ter uma aventura qualquer que pudesse abalar seu relacionamento, mas seu coração, ao mesmo tempo, pedia para viver essa aventura. Ele lutava consigo mesmo, enquanto olhava para ela, em seu semblante plácido, tranquilo, seu remanso, seu rio de águas claras e serenas. Mergulhava, então, em suas águas profundas e bebia o mais que podia dessa fonte geradora de amor. Nesses momentos esquecia de suas inquietações e desejos. Se perdia nela e se encontrava novamente. Ela se abria inteira, entregue, pronta: fruto maduro. Ele sorvia seu néctar , inebriado. Respirava seu cheiro de mulher. Beijava sua boca e nela entrelaçavam sua línguas, numa valsa cadenciada. Sentia o gosto já conhecido, mas não menos amado dessa mulher que é sua, sem surpresas. Enterrava a cabeça entre seus longos cabelos cheirando a jasmin e se sentia num jardim paradisíaco. Tudo era conhecido, mas belo. Para quê buscar noutros corpos uma satisfação momentânea, para aplacar seu desejo de algo novo? Arriscar-se a perder a mulher que para ele era tudo, que era a sua vida. Tolice, devia estar ficando louco. A idade o estava fazendo querer coisas absurdas. "Estou com medo de envelhecer, é isso!" Ele pensa e sorri para si mesmo aliviado. Olha sua mulher, a mulher por ele amada, dentro de seus olhos e diz, com toda a sua emoção:

- Eu te amo!

É outono. As folhas caem das árvores, amarelecidas, bailando no ar. Bela dança outonal. Eles sorriem um para o outro e se abraçam fortemente. Estão juntos e em paz. Essa é a verdadeira felicidade.


Ianê Mello


*Crédito de imagem: Foto montagem de Mihai Criste

2 comentários:

luiz gustavo disse...

outubro: os corvos do meu céu



luminárias devem cintilar
a solidão da noite
de luz insólita

antes de cair dos céus
olharia as sombras
das tormentas

- transformadas em sonhos -

mas deixo
que o falso dia
penetre pelas fenestras
volitando pigmentos
pelos lábios petrificados

exponho
um seio da face ao sol
elevo-me à razão do pulso
que acelera (a)o ritmo dos passos
até o último instante

tão tênue
que eu passo
a desafiar o tempo
do vento mais antigo
e intrigante

ouço dizer que os anos
podem alterar rumos
e muitos anos - o horizonte -

o olhar que arremessei
aos céus nesta noite
não (a)tingiu o coração


www.escarceunario.blogspot.com

Ianê Mello disse...

Agradeço pelo belo poema, Luis.
Seja bem vindo.
Irei visitar o seu blog.
Uma abraço.