domingo, 30 de novembro de 2014

SABEDORIA





entre sentires opostos
pondero
razão ou emoção?

e na dúvida
que se anuncia
é a razão que domina

então, a balançar
entre os  extremos
me vejo

e de repente percebo...

a sabedoria está
no caminho
do meio.


Ianê Mello


Arte: Patty Maher

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

BASTAR-SE



Saber-se só
e achar-se inteira


desejo intenso
que não finda


nas noites insones
nos dias sem sons


no silêncio que perpassa
no transpassar das horas mornas


um abrigo no corpo adormecido
um encontro a sós


em nós



Ianê Mello
(20.11.14)


*Arte de Patty Maher Photography

domingo, 16 de novembro de 2014

FUGACIDADE





com gotas de chuva
costuro o tempo


frágil delicadeza
derradeira sorte


em mãos que não conhecem
o peso dos dias


em breves linhas
que se desmancham


a vida sempre sabe
escorrer por entre os dedos


e na janela dos olhos
a verdade se mostra


em vidraças salpicadas
apenas lembranças


Ianê Mello
(16.11.14)


Imagem: Chema Madoz

sábado, 8 de novembro de 2014

DEVIR




na refletida imagem
um homem espera

sonhos povoados
em vôos de pássaros


onde a noite
se esconde

no passado entreaberto
em sombras

que se descortinam
na memória

em lembranças
guardadas

despojadas
no tempo


Ianê Mello
(08.11.14)



*Imagem: Narakorn Sittites

domingo, 2 de novembro de 2014

ONDE A FELICIDADE SE ENCONTRA






nas cerejeiras em flor
beleza que se revela
aos olhos que a contemplam

na gratidão que transborda
a face umedecida
em lágrimas de contentamento

natureza viva e pulsante
desperta um coração
a - dor - mecido

palavras não cabem
nesta simples paisagem
onde a contemplação se deita

deter-se em momentos assim
é cultivar em si
a verdadeira felicidade. 


Ianê Mello

(02.11.14)

terça-feira, 15 de julho de 2014

FILHOS DE GAZA




Olhos em gaza
na infância perdida
entre escombros


Explosões de bombas
gritaria e fumaça
destruição em massa

Cadáveres espalhados
nesta terra impura
destroçada pelo ódio

A dor é o que fica 
nos olhos aflitos
nas mãos em súplica

nas mães que choram seus filhos
nos corpos inertes ao chão
no sangue derramado

Guerra cruel e insana
movida pela estupidez humana
pela desumana inconsciência 

Até quando olhos
se fecharão para não ver ?

Até quando bocas se calarão
para não protestar?

Até quando

a infãncia mutilada?

Filhos de Gaza.


Ianê Mello
(15.07.14)



DA SÉRIE POEMAS PELA PAZ NA PALESTNA


sábado, 12 de julho de 2014

DAS CINZAS E ESCOMBROS



Perpétua humilhação
sem pátria
sem terras
sem liberdade
banhados em sangue
sem piedade
filhos da impotência
encurralados em Gaza
em vão procuram defesa
em completo desespero
frente  a esta guerra insana
que com apetite voraz  destrói
pedaço a pedaço do que ainda resta
de uma Palestina destroçada
a hipocrisia em discursos vazios
busca justificar  tal matança
em que vítimas civis e crianças
são apenas danos colaterais


O que restará de humanidade
em meio a tanta dor?
Quanto valerá a vida humana
diante de tal tragédia?


Ianê Mello
(11.07.14)


DA SÉRIE POEMAS PELA PAZ NA PALESTNA


*Imagem retirada do Diário de Pernambuco 


sexta-feira, 11 de julho de 2014

MOMENTO QUE SE ETERNIZA



Se amar justifica o apelo
peço que fiques em mim
um pouco mais
quem sabe
saciada a fome
afastado o medo
o desejo de ir
simplesmente passe
como o vento que sopra
pelas frestas da janela
e nossos corpos enlaçados
eternizem o amor que buscam
e este momento único
seja toda a nossa vida


Ianê Mello
11.07.14


*Arte de Dorina Costras.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

CANTILENA



no som do silêncio
a espera muda
abriga sentires

quando o vazio
encontra seu reflexo
na ausência

para que colher
solidões
numa casa em ruínas?

se o que veste a máscara
transfigura sonhos

liberta-te das amarras

e descobre em ti
a música
que acolhe.


Ianê Mello
(09.07.14)


*
Imagem: Patty Maher



quarta-feira, 25 de junho de 2014

RETRATO EM BRANCO E PRETO




com falsos ares de riso
contidos em seu rosto
o homem não ri
mas seus olhos o denunciam
homem de estranho semblante
por dentro a zombar
daqueles que o contemplam
numa foto em branco e preto
amarelecida pelo tempo
naquele quarto obscuro
onde aranhas tecem suas teias
nas paredes vazias


Ianê Mello
(25.06.14) 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

SIMETRIA AMOROSA




Onde eu começo e você termina?
você e eu
que somos um

corpos mesclados, fundidos
num só corpo que se alimenta
da suave delicadeza do amor

meu rosto, seu rosto
geminados num único olhar
perdidos em nossos olhos

seus braços, meus braços
extensão dos seus
na grandeza de nossos gestos

sua boca, minha boca
no prolongamento de um beijo
desdobrado em paixão

suas pernas, minhas pernas
entrelaçadas no deleite
de se dar sem limites

suas mãos, minhas mãos
no toque de nossos corpos
perdidas em nós

Onde eu começo e você termina?


Ianê Mello

*
Pintura de Yarek GODFREY

(Publicação original de agosto de 2012)

domingo, 22 de junho de 2014

MEU REFÚGIO



em teu ombro
eu repouso
meu cansaço

e em ti
das dores
me refaço

meu descanso
meu remanso

de ternura
de brandura

em teu amor
me encontro


ritual de passagem.


Ianê Mello



*
Arte de 
Montessat Gudiol.

sábado, 21 de junho de 2014

segunda-feira, 16 de junho de 2014

DESPERTAR


Sinto a vida a pulsar em mim
olhos de encantamento e assombro
a criança que em mim habita
se veste e se enfeita
rodopia, pula e grita
enquanto o adulto se despede
dando lugar ao sonho.


(16.06.14)

domingo, 15 de junho de 2014

O TEMPO É HOJE



Acolhe em ti o amor que se avizinha
toma-o em teus braços de ternura
que o momento é o melhor presente
e a vida nesse breve instante
é beleza que se despe do tempo.


Ianê Mello
(15.06.14)


* Arte de BRUNO STEINBACH.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

DE BURCA OU MINI SAIA



Que argumentem os tolos                 
não há o que questionar
e minha voz não irá se calar

Seja de burca ou mini saia
não importa a indumentária
mulheres são estupradas
brutalmente  violadas

Desculpas não irão inventar
justificativa alguma irá abrandar
violência gratuitamente praticada
punição é a única saída esperada

Que argumentem os tolos                 
não há o que questionar
e minha voz não irá se calar

Nem com toda hipocrisia
apagarão essa sangria
essa dor no baixo ventre
contra esse ato indecente

Mulher  ferida em seus brios
entregue a cantos sombrios
perdida em seus tantos ais
nunca se esquece -  jamais

Que argumentem os tolos                 
não há o que questionar
e minha voz nunca irá se calar


Ianê Mello
(01.04.14)

* Arte do google de autoria desconhecida.

EXTREMOS INTANGÍVEIS


(para Land Nick in memoriam)


Nos olhos-meninos intenso brilho
O amor à vida estampado no rosto
Nos lábios um sorriso de quem ama
Nas mãos precisas uma câmera atenta
sensível a toda beleza do mundo...
animais, natureza, em todo seu esplendor

Em seu coração o pulsar do universo
num  sentir intenso e humano
Assim a vida lhe sorria serena
em todos os seus matizes e cores

A branca garça a voar contra o azul do céu
A abelha na flor a sugar seu néctar
Dois cisnes enamorados no lago cristalino
A pureza no sorriso de uma menina

...

Até que um dia, seus olhos se fecharam de repente
E a vida lhe escapou, de súbito, num único suspiro.



Ianê Mello
(30.03.14)

domingo, 30 de março de 2014

SÓ CORAÇÃO




Cabeça solta
sentimentos em desvario

nas notas do teclado
a bailarina dança
rodopia...

enquanto as mãos tocam
no branco dedilhar
suaves marfins

Ianê Mello
(29.03.14)


* Imagem: Noé Sendas

terça-feira, 18 de março de 2014

ODE AO AMOR




Escrevo para dizer que amo
Amo desavergonhadamente
Amo todos e tão somente
Amo aquele pelo qual reclamo

Amo como amiga e como amante
Amo tão pura e simplesmente
Amo com fervor e sutilmente
Amo de um jeito delirante

E por amar assim tão loucamente
O amor de mim já se avizinha
Em uma ternura toda minha
E a mim se entrega mansamente

Amo o amor que me preenche
O amor que me penetra nas entranhas
Amo assim com tantas artimanhas
um amor travestido e delinquente


Ianê Mello
(17.03.14)

*Pintura de  Christian Schloe


sábado, 15 de março de 2014

A ARANHA EM SEU TEAR




tarda
a aranha
em sua teia

a tecer
memórias
desencantos

tanto
tempo
tantas

tarda
a tecer
a aranha

memórias
desencantos
em sua teia

tanto
tempo
tantas

a aranha
em sua teia
a tecer

em sua teia
a tecer
memórias

tarda
tanto
tempo


Ianê Mello

(16.02.14)




*Pintura de Susan Seddon Boulet "Shaman Spider Woman"

sexta-feira, 14 de março de 2014

COMPOSIÇÃO




Palavras tateiam
no escuro

mãos
em desalinho

o verbo
rasga

o tecido
formas inexatas

textura imprecisa
alinha-se

pulsa a verve
nasce o poema


Ianê Mello

(16.01.13)

*

Pintura de Francine Van Hove

segunda-feira, 10 de março de 2014

VÔO DAS BORBOLETAS


assim me encontro
em novas paragens
sem bagagem
sem roupas
sem utensílios

cabeça a voar
miragens
coração a saltar
do peito

gosto de viajar
assim
sem rumo
nem paradeiro

partir sem saber
para onde
nem tampouco
quando voltar

apenas sair
por aí
sem bússola
nem direção

sem caminho traçado
sem rota premeditada

seguindo apenas
o vôo das borboletas

Ianê Mello
(10.03.14)

*Pintura de Duy Huynh 


domingo, 9 de março de 2014

AINDA EXISTE VIDA


onde se esconde o humano
nesse protótipo forjado
em metais aprisionado
em mecânicas alienado?

em automatizados sentires
em sentimentos enlatados
em medos encarcerados
em rancores cibernéticos?

e coração dentro do peito
assim meio que sem jeito
sentindo-se excluído
bate mais forte ressentido

ainda pulsa vivo e aflito
diz que sangra e que sente
e dentro do peito acusa:

- Ei, aqui ainda tem gente!

Ianê Mello
(9.03.14)






sexta-feira, 7 de março de 2014

DIAS SEMPRE IGUAIS


Saber-me assim é o que resta
sem novos planos, sem anseios
extraindo da vida o que presta
sem perder-me em vagos devaneios

Um dia após o outro sem sobressaltos
natureza acomodada no momento
já cansada de se expor a grandes saltos
poupada de viver nesse tormento

Imaginar-me assim acomodada
há tempos atrás jamais ousaria
supunha estar para sempre fadada
a viver sem sentir tal calmaria

Por vezes ainda me pergunto
se a escolha que fiz foi adequada
mas não me demoro no assunto
fecho os olhos - não penso em mais nada.


Ianê Mello
(08.01.14)

* Pintura de Jane Ansell






CAMINHO SEM VOLTA




Eu tentei
juro que tentei

percorri espaços
amparei abraços
calei sons

transpus limites
venci caprichos
acatei palavras

sussurrei amores
espantei temores
...
em vão

eu tentei
eu juro  que tentei

mas a carne é fraca
o limite é tênue
a paixão vadia

o sentir tão vão
a cama tão fria
a língua tão áspera

mas eu tentei
eu juro

abri mão da solidão
enterrei meus pés no chão
cavei um poço sem fim

mergulhei pra dentro
bem fundo  tão fundo
me perdi em mim

não fuji
não menti
não trai

e agora
o que faço
com esse imenso cansaço?

não sei como voltar
não posso mais ficar

meus passos 
se perderam
no caminho


Ianê Mello
(07.03.14)

* Fotografia de Anka  Zhuravleva






sábado, 1 de março de 2014

CARNAVAL, ÓPIO DO POVO




Fartei-me das palavras
que ninguém quer ouvir
os batuques soam mais alto
que minha fraca voz

Retumbam em minha mente
ecoando insistentemente
ensurdecendo meus sentidos 

calando minha agonia e meus gemidos

Minha voz ficou rouca de tanto gritar
e serpenteando se perdeu no ar 
nada se ouviu do que tentei falar
e o que calei, guardei em meu olhar

Todos os ouvidos estão surdos
ensurdecidos pelos ruídos
das ruas, dos carros, dos cantos
do rufar dos tambores

Para que tanta alegria? 
Para que a festa?
Por que toda essa folia
se essa babel enlouquecida é tudo que resta?

Confete, serpentina, lantejoulas
brilhos ofuscantes, falsos diamantes
mulheres deslumbrantes 
altivas em seus palanques

Sobre(s)saltos sempre muito altos
no corpo o nu que predomina
no rosto  a dor que se disfarça
na máscara que a face oculta

Falsa alegria que contagia
mas não a mim, que agonia!
Não fui sequer convidada
imagina que pesar!

Carnaval ... falsa alegoria... 
alegria em fantasia  disfarçada
Fogo fátuo que queima 
pra tudo se acabar em cinzas


Ianê Mello

*
Pintura de Joan Miró

sábado, 15 de fevereiro de 2014

NO OLHAR



Distâncias...
Quantas abrigam
Um simples olhar?

Ausências...
Quantas se escondem
Na clara retina?

Distâncias...
Ausências...

De mim
De ti
De nós

Do mundo
Tão vasto
Tão inalcançável

Qual bicho
Acuado
Ensimesmado

Qual ostra
Na concha
Escondida

Por detrás do olhar
Uma mulher
Trancada em si

O quanto abriga
Um simples olhar?


Ianê Mello
(15.02.14)

*
Pintura de Klint


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

VISLUMBRES DO AMANHECER


Era um céu rasteiro, sem fôlego. Mas era o início de um infinito.
Jerusalém, Mia Couto


  
Era um céu azul
um azul tão intenso
que na vastidão
o olhar se perdia

Era um céu azul
horizonte a descoberto
vôos de pássaros
a descortinar lonjuras

Era um céu azul
de um azul infinito
reflexos de luz 
na placidez da manhã


Ianê Mello
(11.02.14)


*
Pintura de Magritte

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

SENTIMENTOS EM CONFLITO





Sei que não é por querer que você me diz
palavras duras que ferem como lâmina de aço
sei até que sua raiva esconde na verdade
um profundo amor que não cabe em si
mas dói, dói demais ouvir tais palavras
dói demais sentir a raiva em seu olhar

Sei que preciso compreender a sua dor
ser paciente e tolerante, que tudo isso vai passar
mas em meu peito este sentimento ruim
teima e insiste em não me abandonar
por mais que não seja a primeira vez
por mais que eu devesse me acostumar

Sei  que a vida com você será  sempre assim
instável, frágil e sujeita a altos e baixos
sei também que você não tem culpa
por estas oscilações de humor constantes
por estes sentimentos que oscilam
do amor ao ódio, por vezes num breve instante

Sei que sou a pessoa que te ama incondicionalmente
que você conta sempre comigo em sua vida
que se você fere é por sentir-se ferida
mas por ser humana não posso me impedir
de sofrer a cada vez que você me ferir
e sentir  o meu amor  cansado assim

Mas sei que amanhã tudo pode mudar
resta então esperar que amanheça
e a doçura em seu sorriso de menina
traga de volta a esperança em meu olhar
e a mãe que em mim adormecia
acorde a mulher que sabe amar

Ianê Mello
(09.02.14)


*
Pintura de Ans Markus


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

O TUDO E O NADA



O tempo que escoa
como areia na ampulheta
e nele a nossa vida
desfeita em sonhos,
em nossa liberdade despedaçada
na prisão do tempo encarcerada.

E os sonhos tão sonhados
pintamos em aquarelas
em nossa mente que divaga
e em palavras nos perdemos
porque queremos ser Tudo
e naufragamos no Nada.

No vazio da ilusão
buscamos algum alento
e o que nos resta senão
mais um desapontamento.

No Tudo que nós buscamos
não vemos o essencial.
A resposta está tão perto
e nós percorremos mundos
só encontrando desertos.
Enquanto procuramos fora
esquecemos de olhar para dentro.


Ianê Mello

*
Revirando o baú em busca de poemas antigos...
Esse é de agosto de 2011.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

CORPO QUE JAZ




pela madrugada afora
nas horas de insônia
corpo cansado
ao descanso não se rende
olhos embassados
pela leitura
mente inquieta

...

há dias me sinto assim
angústias dentro de mim
indagações sem respostas
perguntas vãs e suspensas
e eu, equilíbrio frágil
acrobata delirante
na corda bamba

...

o circo já montado
a platéia a espera
o show acontece
como tem de ser
o dia amanhece
no rosto pintado
um largo sorriso

...

em cordas suspensa
piruetas improviso
ensaio perigos
quedas imaginárias
a lona esticada
amortece o tombo
prolonga a queda

...

nem osssos quebrados
nem fraturas expostas
nem sangue
nem nada
mas algo se quebra
inútil disfarce
a morte é súbita

...

não há mais circo
não há mais platéia
show já não há
apenas um corpo
que jaz ainda em vida
sequelas da dor
que não ousa cessar


Ianê Mello

(05.02.14)