sábado, 1 de março de 2014

CARNAVAL, ÓPIO DO POVO




Fartei-me das palavras
que ninguém quer ouvir
os batuques soam mais alto
que minha fraca voz

Retumbam em minha mente
ecoando insistentemente
ensurdecendo meus sentidos 

calando minha agonia e meus gemidos

Minha voz ficou rouca de tanto gritar
e serpenteando se perdeu no ar 
nada se ouviu do que tentei falar
e o que calei, guardei em meu olhar

Todos os ouvidos estão surdos
ensurdecidos pelos ruídos
das ruas, dos carros, dos cantos
do rufar dos tambores

Para que tanta alegria? 
Para que a festa?
Por que toda essa folia
se essa babel enlouquecida é tudo que resta?

Confete, serpentina, lantejoulas
brilhos ofuscantes, falsos diamantes
mulheres deslumbrantes 
altivas em seus palanques

Sobre(s)saltos sempre muito altos
no corpo o nu que predomina
no rosto  a dor que se disfarça
na máscara que a face oculta

Falsa alegria que contagia
mas não a mim, que agonia!
Não fui sequer convidada
imagina que pesar!

Carnaval ... falsa alegoria... 
alegria em fantasia  disfarçada
Fogo fátuo que queima 
pra tudo se acabar em cinzas


Ianê Mello

*
Pintura de Joan Miró

2 comentários:

AJ Cardiais disse...

Ianê, estou levando seu poema para postar na Academia Virtual de Escritores Clandestinos (facebook). Um abraço

Vieira Calado disse...

E enquanto o povo só pensa em divertir-se, outros, vão arrecadando o dinheiro (mais ou menos) a eles sacado!
Também não vou em carnavais.
Basta-me o que assisto, todos os dias.
É um fartar vilanagem!
Saudações minhas!