segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

SONO PERDIDO




Como dizer bom dia
se em mim não amanheceu
no rosto amarrotado
nos olhos que teimam em não se abrir
nos músculos doloridos do meu corpo
na cama quente que abriga meu suor
no quarto abafado, escuro e vazio

mas o toque insistente do relógio
me desperta para  o novo dia
posso imaginar o sol por detrás das cortinas
posso imaginar as pessoas a caminhar pelas ruas
posso ouvir o canto dos pássaros em alvoroço
os carros a buzinar em sua frenética correria
mas em mim não amanheceu

mantenho fechados meus olhos
estico o braço até a mesinha
desligo o despertador
viro para o lado
viro para o outro
ajeito o travesseiro
deito de costas
deito de lado
deito de bruços
...
nada...

o sono se foi

maldito despertador!!!


Ianê Mello

(29.12.12)

*
Fotografia do Google de autoria desconhecida.

domingo, 30 de dezembro de 2012

SE VOCÊ ME QUER




se você me quer desejo
te quero um pouco mais
nesse lampejo no olhar
faísca de terno amor

se você me quer  ternura
te quero um pouco mais
quando sua voz me desperta
e não me sinto mais só

se você me quer menina
te quero um pouco mais
quando em seu peito me aninho
e meus olhos adormecem

se você me quer mulher
te quero um pouco mais
quando em seu corpo me encontro
e me desmancho em prazeres

se você me quer simplesmente
te quero sempre
e sempre um pouco mais
se você me quer...


Ianê Mello
(03.12.12)

*
Pintura de Santiago Carbonel

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

CONTRA A SOLIDÃO NÃO HÁ REMÉDIO



numa estante cheia de livros
(que nunca li)
vidas que não são minhas
esperam ser desvendadas

mas o olhar pousa cansado
nem delas consigo me apoderar
cansa viver só de ilusões

no peito uma dor doída ainda resta
esse sentir esvaziado de sonhos

esse dia após dia sem surpresas
esse desejo de algo
mas de quê?

essa vontade de fugir
mas para onde?

numa casa cheia de pertences
roupas se amontoam no armário
pedem para respirar outros ares

mas a vontade de vesti-las inexiste
mesmo quando ficar é insuportável

mesmo quando o ar já me falta
entre quatro paredes eu me fecho


Ianê Mello


(25.12.12)

*


Fotografia de Amber Ortolano



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

INEVITÁVEL AMANHECER





nas ruas o brilho da lua
e o silêncio de um céu
sem nuvens

estrelas a cintilar
faróis acesos
na imensidão que se alonga

noite que transborda
desejos e ardis
paixões febris

em cada esquina
uma promessa
satisfação imediata

solidão entristecida
em cada rosto que busca
em mãos que tateiam
no escuro sem resposta

a madrugada des(a)ponta
sólida na dor
no coração que pulsa
na voz que cala

não há remédio
a ferida entreaberta sangra
enquanto o dia
lentamente
...
amanhece


Ianê Mello

(18.12.12)

*

Pintura de Omar Ortiz “La noche estrellada “



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

MULHERES QUE ME HABITAM







Dentro de mim
tantas mulheres
se abrigam
se escondem
se agitam

pintam a boca
se enfeitam
se vestem
e se despem

Dentro de mim
tantas mulheres
se buscam
se calam
se ferem


pintam o cabelo
dobram os joelhos
se acomodam
e se divertem

Dentro de mim
tantas mulheres
mas meus olhos no espelho
só uma conseguem vislumbrar


Ianê Mello



*

Pintura de Francine Van Hove


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

NOSTÁLGICO ENTARDECER






chão de pastilhas brancas já amarelecidas pelo tempo de uso assim como o mármore encardido da pia e os azulejos pintados das paredes dessa cozinha antiga onde ainda se usava butijão de gás num fogão de seis bocas que certamente alimentava muitas bocas onde provavelmente vivia uma família numerosa e todos se sentavam à mesa central de madeira para o almoço caprichado de domingo  e também para o lanche regado a pães acompanhados de bolo de laranja e biscoitos de nata feitos em casa  que exalavam por todos os cômodos um cheirinho de padaria acompanhados de um delicioso café com leite e todos conversavam alegremente  sobre coisas triviais entre uma mordida e outra de pão com manteiga e geléia de morango também feita em casa e as crianças corriam ao redor da mesa fazendo aquela algazarra e depois quando a tarde caía era certo um cochilo na rede estendida na varanda ou numa espreguiçadeira embalado pelo canto dos pássaros nas árvores do quintal que exalava um delicioso perfume de alfazemas onde o sol se despedia do dia com seus tímidos raios


Ianê Mello

(09.12.12)

*

Pintura de autoria desconhecida retirada do google

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

LA CUCARACHA





parecia ser apenas uma barata como qualquer barata que se vê por  aí mas na verdade era uma barata distinta e especial que parecia mexer as anteninhas quando algo lhe agradava e além disso parecia gostar de música se é que é possível uma barata gostar de música pois quando ouvia o som das cordas do meu bandolim  se aproximava  e eu que não tinha medo de baratas continuava a tocar enquanto ela mexia suas anteninhas suavemente como se fossem minúsculas perninhas de uma bailarina a dançar e não parava enquanto eu tocasse o que começou a me fazer vaidoso por ter uma platéia cativa tão atenta e participativa logo na fila do gargarejo o que me fez acostumar-me a toda manhã esperar pela minha companheira de audição e para ela tocar por horas até acontecer um fato inusitado  quando comecei a tocar certa manhã e nada dela aparecer  o que  me deixou consternado e a partir desse dia tal fato se repetiu o que me fez temer pela ausência daquela que fez meus dias se tornarem mais felizes  e que tanto contribuía para o aperfeiçoamento de minha arte e assim sendo resolvi dar uma busca pela casa para ver se a encontrava quando meus olhos subitamente pousaram em seu corpinho estendido no chão do banheiro de empregada com as patinhas para cima e eu  não querendo acreditar  me abaixei e soprei de levinho para ver se ela esboçava alguma reação mas suas anteninhas bailarinas permaneceram  imóveis o que me fez compreender que havia perdido minha companheira e em sua homenagem peguei meu bandolim e para seu corpo inerte toquei uma triste canção de despedida 


Ianê Mello


(09.12.12)

*
Pintura de Pablo Picasso


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

INDELÉVEL




Sombras
sombras projetadas

Vultos embaciados
de corpos

Estáticos...
em movimentos leves

Efemeridades
do imperdoável tempo

Retratos de instantes
breves e fugazes


Captações momentâneas
num flash


no tempo que se esvai
sem deixar marcas


Ianê Mello

(01.11.12)

*
Fotografias de Amber Ortolano

*

Assista ao vídeo-poema:

http://ianemellomeusvideopoemas.blogspot.com.br/2013/01/indelevel.html

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

REPRISE





naquela manhã quente de verão suas mãos estavam frias e todo seu corpo parecia desvanecer  numa palidez inesperada enquanto ouvia sem acreditar o homem que amava dizer-lhe adeus em palavras lançadas como pontas de faca afiada em seu peito matando dentro dela qualquer fio de esperança nesse amor ao qual se entregou sem medidas coisa que jurara para si mesma não mais fazer  pois já conhecia o fim e sabia o quanto era amargo como fel  e assim estava ele à sua frente agora sendo forçada a assistir o mesmo filme que já conhecia passar frente a seus olhos  na mesma forma forçadamente amena de dizer adeus como dizem todos aqueles  que se julgam superiores de alguma maneira por haverem superado um sentimento que antes existia e por acharem que se bastam a si mesmos  podendo do outro dispor como fosse um chinelo velho que não tem mais serventia sem pensar ao menos que esse mesmo objeto tanto tempo lhe serviu e aqueceu os pés em tempos frios e nem mesmo o olhar incrédulo do outro pode dissuadi-lo do término e nem mesmo a lágrima que disfarçadamente escorre do canto dos olhos o comove como se uma capa de frieza o envolvesse e nada mais possa tocar seu coração que um dia se mostrou tão amoroso e seus lábios que agora proferem palavras duras e cortantes nem mais parecem os mesmo lábios de onde só saíam palavras murmuradas docemente e promessas de amor eterno 


Ianê Mello


(05.12.12)


*

Pintura de Santiago Carbonell

domingo, 9 de dezembro de 2012

CONFISSÕES




No rosto o peso dos dias
desejos desenfreados
paixões resguardadas
silêncios adormecidos

No rosto o reflexo da espera
o tempo em finas linhas
devastadas ilusões
inconfessáveis temores

No rosto as horas contritas
amanheceres insones
solidões acompanhadas
em sórdidas esperanças

No rosto o reflexo mudo
vida em desapego tácito
da eternidade vivida
no apelo sem resposta


Ianê Mello

(01.12.12)

*
Fotografia de Amber Ortolano

sábado, 8 de dezembro de 2012

NA COMPANHIA DOS VERSOS




Sabe-se da solidão
o quanto dói
espaço sem medidas
de ausências
noites de insônia
dias cinzas
no peito vazio

Sabe-se da solidão
o quanto oprime
lembranças esquecidas
em sótãos escuros
pequenos tesouros
a sete chaves
num velho baú guardados

Sabe-se da solidão
o quanto entristece
nos versos do poeta
acalentados pela saudade
no conforto das palavras
um breve encontro
ilusória companhia


Ianê Mello

(29.11.12)

*

Pintura de Francine Van Hove

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

PUREZA DA INFÂNCIA



Menina dança
aprende a vida
com o corpo
a balançar-se
de cá pra lá
de lá pra cá
testa seus limites
extrapola
experimenta-se
estica braços e pernas
desajeitadamente
se ajeita
de um novo jeito
flexível que é
bambu ao vento

Menina brinca
pula corda
desata nós
faz caretas
saci perereia
numa perna só
sobe em árvores
pendura-se em galhos
rola na grama
bicho solto
espicha o corpo
saculeja as idéias
em sua cabeça de vento

O tempo passa normalmente
coisa que bem sabe fazer
a menina não sente
a menina não vê
Afinal, a maravilha da vida
está no aqui e agora
A maravilha da vida
é simplesmente viver


Ianê Mello

(30.11.12)

*
Pintura de Paul Klee

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

HIPNOSE NO DIVÃ




Transe hipnótico
olhos vidrados
no pêndulo que oscila
de lá pra cá
de cá pra lá
na voz que sussurra o comando

Sobre a retina dos olhos
lembranças passeiam
passado longínquo
encarnações vividas

No divã o abandono
a entregue plácida
por breves momentos
toda uma vida
nas mãos que embalam o sonho


Ianê Mello

(28.11.12)

*
Fotografia de autoria desconhecida



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

DE VOLTA AO SONHO





hoje acordei de um sonho estranho desses que nos causam vertigem e a sensação de que estamos caindo da cama e ao mesmo tempo a vontade de continuar a sonhar para saber o desfecho pois nos resta a sensação de algo inacabado como na vida parecem inacabados certos fatos que nos ocorrem mas sem dúvida na vida real não estaria sendo perseguida por um lobo feroz e voraz como numa estória de chapeuzinho vermelho perdida na floresta indo para a casa da vovó mas talvez por algum bandido ou assassino que muito não diferiria de um lobo embora suas intenções possam ser outras que não comer-me se bem que num sentido figurado poderia até ser essa sua intenção afinal não faltam indivíduos com taras diversas nessa cidade grande assim como a floresta e suas imensas  árvores poderiam simbolizar os enormes edifícios que nos rodeiam  no centro da cidade e quem sabe um desejo secreto de voltar a ser criança num mundo para mim desconhecido e cheio de surpresas seja representado nesse sonho bizarro onde vejo essa vontade realizar-se o que me leva a divertidamente pensar que se pegar novamente no sono talvez o sonho possa continuar de onde parou e com um sorriso nos lábios fecho meus olhos a espera do lobo


Ianê Mello

(04.12.12)

*
Arte: Amanda Grey

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

VIDRO E CORTE




um sabor de morte e de coisa finda no desalento em cacos de vidro espalhados por todos os lados a vida que se esvai em poças de vermelho sangue a tingir o branco azulejo como marco derradeiro de despedida do débil e frágil corpo jogado na frieza desse chão impuro de um banheiro público onde tudo são escombros e dejetos na louça trincada e encardida do vaso sanitário ainda cheirando a urina e da pia entupida onde tantas mãos foram lavadas em dias e noites desumanos daqueles que vivem na descrença de uma vida melhor abandonados que estão a própria sorte e desgraça sem ter ao que recorrer e ninguém com quem contar para ao menos dividir sua miséria de existir e estar pela vida mendigando migalhas de miseráveis de espírito sem compaixão e sem coragem de continuar põem fim a sua parca existência de forma trágica como esse corpo que aqui jaz


Ianê Mello

(03.12.12)

*

Arte: colagem sem título de Zeigarnik

MERA ILUSÃO




solidão que apavora
quando finda a tarde
melancolia e saudade

o presente já é passado
as águas do oceano fluem
vem e vão...
em vagas

nos ponteiros do relógio
o tempo avança...
tudo passa
tudo muda
nada permanece

só o homem
em sua busca
de fazer de um instante
a eternidade perpétua



Ianê Mello

(30.11.12)

*
Pintura de Edvard Munch

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

SOMBRAS DA INOCENCIA




era tudo tão estranho à luz difusa do velho abajur projetando sombras na parede como fantasmas a vigiar os corpos nus no leito revirado enquanto a noite ardia em tremores súbitos e o véu do encanto se dissipava em nós na aranha que tecia a teia lúgubre das horas enfeitiçada pelo tique-taque do relógio na parede pálida de espanto enquanto fora a chuva fina batia contra as vidraças e o vento cortante embalava as roseiras no jardim esvoaçando suas delicadas pétalas carmesim e suas hastes balançavam-se num confuso balé cuja música era o sibilar do vento que também se fazia ouvir no farfalhar das folhas das árvores em que pássaros pousados em seus galhos protegiam-se da chuva nessa noite em que tudo era silêncio ocultado nas sombras e até mesmo os bichos encolhiam-se em suas tocas  e a lua sequer se atrevia a desvendar-se entre as escuras nuvens que acobertavam malvadamente o brilho das estrelas como fosse esse ato impiedosamente condenado como profano e dele só restasse o ocultamento tornando-o inexistente aos olhos humanos que por assim serem o julgariam condenável e impróprio sendo portanto indigno e vergonhoso de ser propagado devendo permanecer nas sombras da noite como um fantasma indesejado de revelar-se mesmo que a pureza do amor que envolvia os dois amantes fosse o único propósito desse imponderável encontro tão inocente para ambos que permaneciam completamente alheios eternamente perdidos num sonho impossível tendo a noite como única testemunha muda desse amoroso desenlace


Ianê Mello

(02.12.12)

*
arte: colagem sem título de Lydia Roberts

sábado, 1 de dezembro de 2012

REFLEXÕES SOBRE O HUMANO II




preciso muito caos interior para poder parir uma estrela que dança."

                                                                                           Friedrich Nietzsche


É preciso lançar-se no escuro

É preciso atirar-se ao precipício

É preciso entregar-se ao desconhecido

É preciso mergulhar no vazio de si mesmo

É preciso não temer a solidão

É preciso ouvir sua voz interior

É preciso navegar em mares bravios

É preciso coragem de ousar mudar

É preciso enfrentar seus próprios fantasmas

É preciso conhecer sua própria sombra

É preciso querer enxergar além dos limites

É preciso domar os próprios medos

É preciso revelar segredos inconfessáveis

É preciso sacudir as sólidas estruturas

É preciso desnudar-se frente ao espelho

É preciso revelar-se além do óbvio

É preciso desconstruir-se por inteiro

Assim, gerado a partir do caos interior

renascerá em sua completude

esse ser que em você se esconde

esse ser que verdadeiramente és  


Ianê Mello

(30.11.12)



Pintura: Joan Miró - Constelação - A Estrela da Manhã

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

REFLEXÕES SOBRE O HUMANO





O quanto de humano ainda carregamos em nós?

A palavra emudecida, o sorriso congelado, o olhar de desamor?

O grito preso na garganta, o dedo em riste, a ausência de ternura?

Músculos e ossos, sangue e vísceras: corpo humano.

Será que é tudo o que nos resta de humano?

Somente um corpo?

E a nossa alma?

Um corpo sem alma é apenas um corpo que não tem consciência de sua humanidade.


Ianê Mello


*
Pintura de Charles Munch

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

DE PEDRA E PÓ




Buzinas, carros
sinais vermelhos

lixo, asfalto
solidão humana

calçadas, pessoas
tempo fugidio

fome, desespero
corpos adormecidos

barulhos, rostos
caos urbano

choro, grito
criança abandonada

olhares, passos
indiferença desumana
 
...

lágrimas congeladas
nudez desprotegida
desamparo mudo
nessa cidade sitiada


Ianê Mello

(27.11.12)


*
Pintura de José Mário Santos 


terça-feira, 27 de novembro de 2012

EM ABANDONO




Casa vazia
poeira e
mágoa

retrato amarelecido
tempo
dormente

recônditos
escondidos
mofo e traças

nas teias
no teto
aranhas tecem
tramas


Ianê Mello


(26.11.12)

*

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

ALMA LIBERTA




Alma
onde te escondes
em que corpo habitas?

o sangue que lateja
a veia que pulsa
o pulsar vital

onde estás
alma?

se desse corpo inerte
escapaste ilesa
desprendida e solta
vez que não és presa
vagueias  volátil
alma etérea
estás liberta


Ianê Mello

(25.11.12)

*
Pintura de Viktor Sheleg

Alma- Zélia Duncan






domingo, 25 de novembro de 2012

EU PRECISO NAVEGAR





tudo cabe na palma da mão
o sonhar sem limites
arriscar-se em visões
navegar noutros mares
caminhar novas trilhas
o futuro nas mãos
o espaço para o sonho

descortina-se a vida
na retina dos olhos 
luz que se acende
ilumina o caminho
passo a passo adiante
limites não há
para quem sabe sonhar


Ianê Mello



(25.11.12)

*
Pintura de Nicola Slattery



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

ACALANTO




A noite envolve o dia
cobrindo-o com seu manto
o pensamento vagueia
palavras  se buscam
na adormecida inspiração
nem mesmo as estrelas
nem a cintilante lua
fazem acordar os versos
embalados pelo sono
em plácido acalanto



Ianê Mello 

(19.11.12)


*
Pintura de Marc Chagal

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O CORVO




Pássaro preto
angústia 
em meu peito
encarcerada
coração petrificado


Agourento pássaro
triste sina
alma atormentada
sem asas
agrilhoada




Ianê Mello




*

Pintura de Tomasz Alen Kopera


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

MENINA DOS OLHOS





Olhos ardem
pálpebras cansadas
turva visão
menina adormecida



Colírio para clarear
gotas de ilusão
despertam do sono
a menina adormecida






Ianê Mello


(13.11.12)


*Pintura de Paul Klee

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

COISAS QUE A MATURIDADE TRAZ




Assim um dia nasci...
era dia dos namorados,
uma bela data para nascer,
mas sem graça cresci
Na minha infância,
tímida e “sem sal”,
passava desapercebida
pelos cantos das muradas,
me escondendo do mundo
As pessoas me intimidavam,
seus olhares de cima a baixo,
seus sorrisos maldosos,
seus gestos sem perdão
Dia a dia fui aprendendo
que para sobreviver
é preciso ser forte,
é preciso acreditar em si mesma,
é preciso aprender a caminhar
de cabeça erguida e olhar atento
Agora, adulta que sou,
trago em mim a passagem dos anos
e o desejo de ser mais que uma lembrança
Não tenho todas as respostas que quero
mas não me canso nunca de perguntar.


Ianê Mello

(08.11.12)

*
Pintura de Paul Klee

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

PARA SEMPRE NA MEMÓRIA




A solidão permeia o entardecer, tingindo de cinza o alaranjado céu. A casa vazia, o silêncio em cada cômodo. Nos móveis antigos o abandono retratado numa fina camada de pó que os recobre. Sobre as janelas, uma pesada cortina de veludo cor de vinho se encarrega de filtrar qualquer passagem de luz externa, qualquer contato com o mundo lá fora. No sofá esverdeado, com o tecido já gasto pelos anos, um corpo repousa inerte. As mãos pendentes sobre o corpo imóvel, que só se percebe com vida por um leve movimento em seu peito, causado pela fraca respiração, lentamente cadenciada. Olhos fixos no teto onde uma aranha distraída tece sua teia. O relógio bate as horas. Intermináveis horas de dor e espera. Na parede um único retrato, já amarelecido pelo tempo.  Mulher de pele clara, rosto emoldurado por fartos cabelos loiros e os olhos de um profundo azul. Um azul tão intenso que se pode quase jurar que esses olhos podem ver através da moldura, atravessando o tempo e a própria morte. Sim, essa mulher retratada já viveu nessa casa um dia. Com ela, a alegria irradiava, preenchendo todos os espaços. Tudo era só luz e beleza.  Quando ela se foi deixou apenas o vazio que nada pode preencher. Nessa mesma casa onde tudo agora é só silêncio, sobrevivem os fantasmas do passado, nesse homem que cultiva, dia e noite, noite e dia, a memória da mulher para sempre amada.


Ianê Mello


(07.11.12)

*
Pintura de Yuri Yarosh

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

SENTIDOS AGUÇADOS





O pulso pulsa
num frêmito existir
no fervor do sangue
nas veias a correr
urgências de viver
uma fome imprecisa
um insaciável sentir
urdiduras entrelaçadas
em fios de seda
uma pungente agonia
em altos brados
ressoa em ardis
ardentes desejos
inconfessáveis trajetos
inquietas pausas
tremores e suores
em cavernosos corpos
umidificados no leito
em letárgicos abandonos
imponderável deleite
na consumação do ato
redenção sem súplica
branco espasmo estremece


Ianê Mello


(03.11.12)

*
Pintura de Katarina Ali.


sábado, 3 de novembro de 2012

INCANSÁVEL ESPERA




Nesse momento tênue
em que me cobrem as vestes
o fino tecido sobre a epiderme
num íntimo e leve contato
meu corpo reclama suas mãos
num desenfreado desejo de perder-me
...
mas você não está aqui

Tenho na solidão a companheira
de minhas noites vazias
Sem a sua presença me calo
não há brilho em meu olhar
o sorriso foge de meus lábios
e uma indiscreta lágrima
teima em rolar pela minha face

O tempo não apagou da memória
você permanece em mim
seu cheiro almiscarado
sua voz suave e rouca
seus olhos negros e profundos

Meus dias tornam-se iguais
sem maiores sobressaltos
sem promessas de alegria
amanhecem e anoitecem na saudade
na espera incansável por você


Ianê Mello
(2.11.12)

Pintura de Fabian Perez

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

SEM PERDÃO




Não, não mais...

não mais a palavra fria e cortante
não mais um adeus a cada instante
não mais a solidão na noite vazia
não mais essa imensidão sombria

Não, não mais...

Não mais esse olhar de tristeza
não mais a ausência de beleza
não mais esse viver sem sentido
não mais esse rouco gemido

Não, não mais...

Não mais esse grito sufocado
não mais esse amor guardado
não mais esse platônico desejo
não mais esse momento em que fraquejo

Não, não mais...

Não mais esse sofrer constante
não mais esse torpor do instante
não mais esse degelo na alma
não mais essa aparente calma


Não, não mais...

Não mais essa aventura insana
não mais essa coisa profana
não mais essa insensata estupidez
não mais o meu perdão outra vez


Ianê Mello

(30.10.12)

*
Pintura de David Jon Kassar.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

CENA DO COTIDIANO




Ela chega em casa exausta. Joga sua bolsa no sofá e encaminha-se para o banheiro. Abre a torneira da banheira, regulando a água para uma temperatura agradável, nem muito quente, nem muito fria: tépida. Livra-se de suas vestes com impaciência. O barulho da água a jorrar é um convite para o seu corpo cansado. Com a ponta do pé testa a temperatura antes de entrar. Perfeita! Mergulha seu corpo aos poucos, até ficar submersa, mantendo apenas o rosto fora d’água, entregando-se ao toque suave e morno, como uma carícia reconfortante a envolvê-la. Sente-se como se estivesse de volta ao útero materno. Fecha os olhos lentamente e deixa-se invadir por essa gostosa sensação. Nada mais existe nesse momento, além dessa leveza, além desse torpor. Deve ter adormecido por um breve instante. Escuta ao longe o telefone que toca, despertando-a para a vida, mas não encontra forças para se levantar. Deixa-se ficar, então, nada há de ser tão importante que não possa esperar.



Ianê Mello

(30.10.12)


*
Pintura de Alyssa Monks.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

(DES)UMANIDADE



Cidade de Pedra
asfalto e pó
concretude inabalável
dos altos dos prédios
nas ruas esgotos fedem
calçadas de lixo humano
sobre papelões e jornais
corpos desabrigados
dormem anestesiados
embebidos em álcool
transeuntes passam
apressados e distraídos
já não há surpresa
nessa selva de concreto
a vida segue seu ritmo
não há tempo para sentir
a realidade é o asfalto quente
os carros parados nos sinais
o menino a limpar para-brisas
a busca pela sobrevivência
não há lugar para o sonho
os dias correm iguais
e quando a noite avança
se faz a escuridão nas ruas
no silêncio o choro da criança
é o único som que se faz ouvir
lamento triste que embala a noite
na cidade de asfalto e pó.


Ianê Mello

(30.10.12)

*

 Pintura de autoria desconhecida

Música Incidental: Lady Jane- Olivia Byington



terça-feira, 30 de outubro de 2012

FUGACIDADE




Tomado pelo espanto
súbito desenlace
a mesma mão que afaga
fere a carne trêmula
jorra o sangue
da ferida aberta
em poças vivas
no azulejo branco
no corpo quase inerte
já não há encanto
a vida se esvai
num sussurro breve
e tudo o que era luz
perde seu brilho
nos olhos opacos
a menina dorme
um sono profundo
e sem retorno


Ianê Mello

(29.10.12)

*
Pintura de John Hummel


MENINA NA JANELA





As fachadas das casas
com seus telhados
sombreiam as ruas
nesse morno entardecer

Em cada janela entreaberta
uma tímida nesga de sol
atravessa o cômodo
trazendo um pouco de vida

Cada casa guarda um segredo
um canto obscuro
um jardim escondido
um baú de sonhos

Numa das janelas, uma menina,
cabelos vermelhos de fogo
no branco rosto um sorriso
um olhar que tudo vê

As fachadas das casas
as janelas entreabertas
os secretos segredos
a menina a sorrir...

Mais um dia se passa
nesse morno entardecer
no olhar que tudo vê
um baú de sonhos


Ianê Mello

(28.10.12)

*
Pintura de Anat Ronen

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

INTERLÚDIO





No espaço entre o sim e o não
o talvez se faz possível
e ressurge a vontade
de um querer sem limites

No espaço entre o silêncio e a palavra
o pensamento se torna real
e da lacuna se faz a dúvida
esvaziando-se as certezas

No espaço entre o amor e o desejo
a paixão supera os limites
o corpo se desfaz em luxúria
e a razão perde o sentido

No espaço entre o sim e o não
entre o silêncio e a palavra
entre o amor e o desejo
existimos nós dois e nada mais


Ianê Mello


(26.10.12)

*
Pintura de Marc Chagal

domingo, 28 de outubro de 2012

ENQUANTO ROLA UM BLUES





ao som
ao sul
ao azul
um blues
toca
arranha
a pele
tensa 
o corpo
umedece
na veste
nos olhos
o brilho
azulejando
azuis 
o amor 
já partiu
na dança
que não dançamos
em melancólicas notas
que desmancham-se
em estrelas


Ianê Mello


(26.10.12)

Não me pergunte a hora- Nei Lisboa



sábado, 27 de outubro de 2012

MÁSCARAS QUE CAEM




Artefatos de artifício
pele que escamoteia
jogo de esconde-esconde
lobo em pele de cordeiro
máscaras que encobrem rostos
tudo é maya, tudo é ilusão
a imagem criada
a linguagem inventada
puros disfarces do real
personagens encenados
num palco montado
somente para a platéia
artistas treinados
saboreiam aplausos
e a dor se esconde
mas ao final do espetáculo
cai o pano, acaba a cena
a platéia se retira
e no chão espalhadas
as máscaras se tornam inúteis


Ianê Mello

(24.10.12)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

NA ESTAÇÃO





Fim de tarde. Todos apressados saem de seus trabalhos. Caminham pelas ruas ligeiramente. A estação de metrô fervilha. Pessoas são como formigas amontoadas a espera do próximo vagão. Há que se ficar esperto para conseguir entrar. E eis que ele chega: já lotado. As pessoas se empurram e se comprimem buscando um espaço que não existe. Parece impossível acreditar que ainda cabe mais um corpo nesse espaço. Mas cabe, tem que caber! O sinal apita. A porta fecha, forçando a entrada ainda mais. Colados no vidro rostos e corpos de expressão cansada mais parecem peixes num aquário. Dentro, uns comprimem-se contra os outros, apertam-se, espremem-se, até quase formarem uma massa compacta, onde não se distinguem mais os corpos, onde um começa e o outro termina. Os cheiros, os rostos, os corpos se misturam, confundem-se, mesclam-se. Uma mulher sente falta de ar. Começa a passar mal e grita. Mas o que fazer? O jeito é esperar a próxima estação. Quando ela chega, a mulher tenta em vão sair...impossível. A massa humana já a espera na estação empurra ela de volta. Nisso, em movimento contrário, um homem de idade é empurrado para fora do vagão. Ele resmunga e tenta entrar de novo, também em vão. Tudo o que resta é cada qual conformar-se, manter a calma e a paciência, respirar bem fundo, fechar os olhos e esperar chegar ao seu destino. Não há nada que se queira mais nessa hora do que chegar em casa, tomar um bom banho, comer um bom prato de comida, assistindo um pouco de televisão. Depois, uma boa noite de sono, para recuperar as energias para enfrentar um novo dia e, com muita sorte, uma volta para casa mais tranquila. Mas do que podemos reclamar afinal, temos uma casa, comida e todo o conforto de um lar, enquanto tantas pessoas nem ao menos isso tem, não é mesmo?


Ianê Mello

(24.10.12)