domingo, 3 de julho de 2011

O PODER DA PALAVRA






Palavras... palavras.  Palavras jogadas ao vento. Palavras ditas ao relento. Palavras sem sentido. Palavras certas, precisas e adequadas. Palavras que destroem, que ferem e machucam. Palavras que ajudam na construção de um mundo melhor. Palavras que incitam à violência. Palavras que proclamam paz.


Não, não quero mais palavras retas retilíneas e certas, precisas. Quero palavras tortas, cambaleantes, encharcadas como um ébrio de sua bebida a andar por aí à esmo, sem saber aonde chegar. Palavras embaralhadas, desprovidas de sentido, palavras torpes, inaudíveis aos apurados ouvidos. Palavras que gritam, palavras que ferem como ponta de faca.


Disse à você palavras de promessas que não cumpri. Machuquei seu pequeno coração tão terno. Me arrependo, se isso bastasse para redimir-me, mas sei que não basta. É preciso atitudes condizentes. Disse te amar e prometi ser para sempre. Eternizei meu amor. Minha garotinha, você não poderia entender. É tão pura! A inocência te fragiliza e te torna alvo fácil de palavras impensadas. Quebrei as promessas, rompi os tratados, traí mitos. Enquanto você em doce sono, adormecia em meus braços, embalada por meu encanto.


Palavras que acariciam como mãos de fada. Palavras...palavras...palavras... Palavras brancas, palavras brandas.


Feri minha princesinha de contos de fada, perdoa-me. Fui desprecavida, fui apressada e imatura. Pensei em mim, não em você. Tudo que sempre precisei estava em meus braços, doce criança. E destruí o sonho, aniquilei a fantasia. Agora choro a dor da perda de sua inocência, de sua infância que estava em minhas mãos. Usurpadora eu fui, roubando-a de você. Transformando suas ilusões em pó.


Palavras vermelhas de sangue. Meu próprio sangue que escorre e flui. Como estancá-lo, ferida aberta e exposta? Como silenciar a voz que sai das entranhas Esse grito gutural e animalesco. Esse urro, esse sussurro, esse bradar...


Agora, resta a dor... A agonia e o lamento de te tornar tão triste. Te ver crescer aos trancos e barrancos, perdida nesse mundo tão desigual. Minha menina, deveria tê-la protegido mais, tê-la amado mais... Agora é tarde. O tempo esgotou-se. Você cresceu. Minha menina cresceu e com ela as lembranças de um tempo em que não tive o que necessitava. Tempo em que não foi acolhida como deveria. E cresceu na solidão de si mesma. Torno-me não humana, pois que humana já não posso ser ao ver-te tão desprovida de recursos para a vida viver e enfrentar por minha culpa.


Como lobo a uivar pra lua. Animal aprisionado que se liberta. A noite não tem fim. Fechem janelas e portas. Tentem não ouvir esse apelo. Continuem surdos em seus mundos de hipocrisia. Sou fera, sou bicho, sou fêmea. Quando a lua vislumbro no alto céu não sou mais eu, me transformo. Sou a natureza selvagem que em mim habita.


Como um animal vivo à espreita. Na solidão de minha caverna escura. Minha cria não mais me pertence, sequer me reconhece. Sou um lobo solitário a uivar para a lua.


( Inspirado em Enjoy The Silence - Tori Amos)

4 comentários:

Tatiana Moreira disse...

Nossas palavras são realmente preciosas... Tanta estancam quanto abrem feridas! Tudo requer cuidado e sutileza!
Tenha uma ótima semana!
Um beijo com o meu carinho

Dalila Pinheiro disse...

Bela inspiração!!
Gosto muito de passar aqui e ler os textos que você publica, em breve vou publicar o que descreve o seu perfil se me permite, com os devdos créditos!! uma semana de paz para vc.
bjs

http://segredosdocorao.blogspot.com/

Ianê Mello disse...

Obrigada pela leitura atenta e carinhosa.

Bjs com carinho.

Ianê Mello disse...

Olá, Dalila!
Fico feliz que goste de meus escritos.
Fique à vontade para compartilhá-los.
Namastê.

Bjs.